29.10.26
25.10.26
Mesmo se ganhar, Lula perderá: pitacos sobre o iminente Waterloo petista
Pirro já dizia: há vitórias que custam muito caro - mas, ressalve-se, Lula não poderia deixar o Partido na mão depois de tantos "bom dia, presidente" defronte a prisão improvisada de Curitiba. Ele não fora libertado para ficar em casa, havia um Bolsonaro para ser derrubado e uma imagem a consolidar.
Quer dizer, ao menos era nisto que a trupe petista acreditava - e tudo começou dando certo, desde os embargos de declaração que fizeram de Zanin ministro até a excepcional promessa de que voltaríamos aos tempos de picanha e cervejinha dos Lula I e II.
Tudo muito bom, muito certo... até que o contexto (e a realidade) se impusessem ao grupo petista.
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O primeiro mandato de Lula foi uma surpresa agradável, de quem sabiamente dividiu o bolo crescido nos governos do PSDB para dar ao povo algo mais que migalhas do progresso brasileiro. O segundo foi salvo pela "gerente durona", que liberou o "barbudo" para ser político e organizou a casa de Lula II.
Resultado? O prêmio de ser a primeira "presidenta", grosserias, polêmicas, Mais Médicos, impeachment - e Temer, arrumando a bagunça do segundo governo Dilma e abrindo espaço para o despreparado Jair Bolsonaro, o "bobo da corte" que ousara dizer um dia que o rei estava nu.
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O governo do "mito" pode ser interpretado como um sonho ou um pesadelo: quatro anos de políticas liberais, sem contrapartidas em redução de gastos; um show de horrores durante a pandemia - no qual muitos dos erros de Bolsonaro obscureceram o papel de outros grupos no processo; mas, principalmente, um estilo de tratar as pessoas completamente sem noção, que lhe custou a reeleição.
Vergonhoso? Sim, ainda mais depois da prisão por "tentativa de golpe", essa estranha interpretação do ordenamento jurídico que permitiu que depredar patrimônio público e mandar fax com alternativas para a posse do novo-antigo presidente fosse tratado como possibilidade de insurreição armada. Arruaceiros foram presos por ser golpistas, tratados como exemplo por governo, elites e STF...
... e se tornaram o primeiro erro do Lula III: achar que a punição exemplar seria aplaudida pela sociedade. O "mito", na cadeia, virou mártir - atormentando o terceiro mandato da lenda petista.
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Bourbons. Não aprenderam nada, não esqueceram nada - e ainda querem impor sua versão dos fatos aos outros, como se as pessoas não tivessem cérebro para entender a realidade como ela é.
O terceiro mandato de Lula foi uma sucessão de erros: gastos excessivos, mostras constantes de deslumbramento, tentativas contínuas de reescrever a realidade por um governante calejado, que já deveria saber como o poder funciona, fora e dentro dele. Governo que fez tudo, menos o essencial: governar, fazer algo que realmente fosse visto como uma evolução pelo povo que elegeu.
Sem tirar de si o carimbo indelével da mediocridade, de quem tinha obrigação de ter feito mais do que deveria, e contando com a falta de credibilidade dos decepcionados com a eleição de 2022, restou a Lula e aos seus irem para uma batalha na qual o resultado será ingrato: perder, mesmo que ganhe.
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Lula IV, caso ocorrer, será marcado pelo descrédito total. O "molusco" terá que cumprir com tudo o que prometeu, sabendo que não há dinheiro para honrar os compromissos já em 2028; será impossível controlar a arrogância de correligionários que não aprenderam com as derrotas do passado - e, mais importante, terá que lidar com o cansaço de quem deveria ter se aposentado somado aos novos abutres que, em seu nome, usam e abusam do poder, botando a conta nas costas do patriarca.
Se perder... será Waterloo.
P. S.: Lula ganhou, a abstenção mostrou que as pessoas tem medo de perder benefícios. Tem quatro anos para governar como se deve, e evitar o exílio no sítio de Atibaia (melhor que Santa Helena).
Duvido que o faça, contudo.
22.10.26
21.10.26
Os 10 arquétipos da esquerda brasileira: como reconhecê-los antes que venham explicar o Brasil para você
Eis aqui listados os dez arquétipos do esquerdista brasileiro.
O top 10 para reconhecê-los em sociedade antes que eles comecem a explicar como funciona a luta de classes — de preferência, enquanto você paga a conta das excentricidades deles.
1. A burguesinha revolucionária do Instagram.
Apartamento em Pinheiros pago pelo papai, stories sobre a luta de classes e fotos de férias em Trancoso. Dá lições de moral em carrosséis de dez slides, com fonte minimalista e fundo bege. Defende a taxação das grandes fortunas, desde que ninguém confunda a fortuna da família com o próprio patrimônio afetivo. Conhece a classe trabalhadora por documentários, podcasts e pela moça que limpa seu apartamento três vezes por semana.
2. O cicloativista de ocasião.
Mora em Santa Cecília, em São Paulo, ou na Zona Sul do Rio. Odeia carros, congestionamentos e estacionamentos — pelo menos até precisar pegar o SUV da família para passar o feriado em Campos do Jordão ou Búzios. Participa de manifestações pelo clima na quarta-feira e embarca para a Europa no sábado. Sua contribuição para a sustentabilidade é uma ecobag que custou R$ 180 e a convicção de que a solução para o trânsito é todo mundo fazer exatamente o que ele faz.
3. O revolucionário de universidade federal.
Quer abolir o capitalismo antes de terminar o curso de Ciências Sociais. Participa de assembleias, organiza centros acadêmicos e explica a exploração do proletariado usando um MacBook comprado pelos pais. Tem certeza de que a iniciativa privada é moralmente suspeita, mas não dispensa um estágio remunerado em uma grande consultoria. Em cinco anos, estará trabalhando para um banco ou uma multinacional, defendendo a responsabilidade social corporativa e dizendo que a vida real é mais complexa do que a teoria.
4. O sociólogo de LinkedIn.
Nunca administrou uma empresa, nunca precisou fechar a folha de pagamento de uma equipe e talvez nunca tenha contratado ninguém. Ainda assim, sabe exatamente por que toda empresa é uma estrutura de dominação e por que todo empresário é um explorador em potencial. Publica textos sobre a precarização do trabalho entre uma bolsa de pesquisa e outra, frequentemente sem reconhecer que também depende de instituições, orçamentos e contribuintes. Para ele, o problema nunca é o Estado gastar mal: é o Estado não gastar o suficiente na direção que ele considera correta.
5. O startupeiro de impacto social.
Captou milhões de reais para criar um aplicativo que faz praticamente a mesma coisa que outros aplicativos, mas com as palavras “inclusão”, “diversidade” e “transformação social” na apresentação para investidores. Fala mal da obsessão pelo lucro no LinkedIn e comemora discretamente a valorização da própria participação societária. Seu modelo de negócios é salvar o mundo, desde que a rodada de investimento seguinte seja maior que a anterior.
6. O herdeiro da esquerda caviar.
Tem apartamento próprio, casa na praia e sobrenome conhecido nos círculos certos. Defende a reforma agrária, a taxação das grandes fortunas e o fim dos privilégios históricos. Só não gosta quando alguém sugere começar pelo patrimônio da própria família. Afinal, o caso dele é diferente: não se trata de privilégio, mas de “construção patrimonial”, “planejamento sucessório” e “complexidade tributária”. A revolução, naturalmente, pode esperar até depois do almoço no restaurante em que o prato custa o salário semanal de muita gente.
7. O homem desconstruído profissional.
Começa toda frase com “enquanto homem branco, cis e privilegiado, eu preciso reconhecer...”. Depois de reconhecer, passa vinte minutos explicando como chegou à conclusão. É aliado de todas as causas, conhece o vocabulário de todas as militâncias e consegue transformar qualquer debate sobre mulheres, negros ou trabalhadores em uma oportunidade para demonstrar a própria consciência social. Está sempre disposto a ceder o protagonismo — desde que seja ele quem anuncie a cessão.
8. O artista da resistência financiada.
Sua peça sobre a fome, a desigualdade e o abandono dos trabalhadores recebeu recursos públicos, apoio de uma fundação e patrocínio por meio de uma lei de incentivo. A estreia reuniu 35 pessoas, incluindo elenco, equipe técnica e outros artistas contemplados em editais. Ele considera o público desinteressado, a imprensa conservadora e a falta de recursos o único motivo pelo qual sua obra ainda não transformou a sociedade. Quando alguém pergunta pelos resultados, responde que a arte não pode ser medida por critérios mercadológicos. Quando pergunta pelo próximo edital, entretanto, conhece todos os prazos.
9. O jornalista objetivamente progressista.
Não faz militância, faz jornalismo. Não tem lado, tem compromisso com a verdade. Curiosamente, certas pautas recebem manchetes enormes, enquanto outras ganham uma nota escondida no fim da página. Determinadas manifestações são descritas como atos democráticos; outras, como ameaças à democracia. Ele garante que tudo isso decorre exclusivamente de critérios técnicos de edição. Quem percebe uma possível seletividade editorial é acusado de não compreender a complexidade da imprensa. E quem aponta o mesmo problema no campo político oposto recebe, em algumas ocasiões, o benefício da dúvida.
10. O prefeito anticarro de condomínio.
Transformou uma avenida em corredor de ônibus, instalou ciclovias, eliminou vagas de estacionamento e reorganizou o trânsito para tornar a cidade mais sustentável. Até aí, tudo bem: planejamento urbano é assunto sério. O problema começa quando as mudanças são feitas sem alternativas adequadas para quem mora longe, trabalha em horários difíceis ou depende do carro porque o transporte público não resolve sua vida. Enquanto o trabalhador descobre que o trajeto de 40 minutos virou uma viagem de duas horas, o prefeito participa de um evento sobre mobilidade sustentável e segue para o próximo compromisso com uma estrutura de transporte que o cidadão comum não tem.
O ponto em comum entre todos eles?
A convicção de estar do lado certo da História — mesmo quando o cotidiano revela uma distância considerável entre o discurso e a prática.
Conhecem a classe trabalhadora pelos levantamentos do IBGE, a pobreza pelas estatísticas, a periferia pelas campanhas eleitorais e a desigualdade pelos seminários. Defendem os mais pobres, mas nem sempre convivem com eles; criticam os privilégios, mas nem sempre reconhecem os próprios.
No fim, a contradição não está em ser de esquerda, ter dinheiro, estudar em uma universidade pública, usar bicicleta ou receber recursos para produzir arte. Está em exigir dos outros uma coerência que a própria pessoa não está disposta a praticar.
Porque, no Brasil, até a revolução pode virar um produto de luxo — com financiamento, assessoria de imprensa e estacionamento com manobrista.
(original em https://x.com/brivael/status/2112630965277454615)
16.10.26
Poesia
Meu lado interno se sente invadido.
Eles virão ocupar meu espaço.
E...
... que farei eu?
Sorrir, como um idiota.
Porque... não basta eu. Nunca bastou.
fps, 16/10/2026, 19:59
10.10.26
7.10.26
Prosa: Minha filha é uma figurinha - I
O tênis que voou
Cinco e meia da tarde, hora de quebrar um pouco o expediente em "home office" para reencontrar minha filha no colégio e trazê-la para a segurança de seu lar. Cada vez menos pequenina - mas não menos arteira.
Arruma a mala, primeira marcha, o carro segue o curso, quase no automático - e a pequena começa:
- Paiê... 'cê não vai ficar bravo comigo...?
Como todo pai já estava esperando alguma bomba, tipo zerar uma prova, receber advertência, ter comido alface e fruta no almoço... não, isso seria bom, muito pelo contrário... seria chocante, mas seria bom...
Nisto, como já não dava para esconder muito tempo mais, vem o disparo:
- Eu joguei o meu tênis por cima do muro do colégio.
Hmmm...
- Você... O QUÊ...?
Paro o carro. Observo, fazendo algumas perguntas e checando o ambiente: "qual o tênis?... esse aqui?... ufa, não perdeu... mas.. er... como é que isso é possível, gente... não dá, não faz sentido...".
E a pequena começa a explicar, no melhor estilo "metralhadora giratória":
- Foi assim, a minha amiga foi mostrar um golpe que tinha aprendido no jiu jitsu da escola e fez um chute, assim (neste momento mostra o chute, ou o pé que deu o golpe)... só que eu mandei para o lado errado e aí... o tênis voou...
"o tênis voou... como é que um tênis voa... esse tênis... esse tênis não tem cadarço, não é maior que o pé dela... não tem asa... como, como, COMO É QUE UM TÊNIS DESSE VAI VOAR, GENTE????"...
- 'cê não vai ficar bravo, pai? Me deixar de castigo?
- Não, filha... o tênis está aí, você o recuperou... porque é que eu ia ficar bravo com isso? Pior seria se tivesse perdido ele e você tivesse ficado descalça, e a gente correndo para levar outro par pra você...
Pausa rápida, e a pergunta:
- ... só não entendi uma coisa: como é que esse tênis "voou" do seu pé? Não entendo isso...
E ela:
- Sabe o que é... é que a gente estava ensaiando golpes, e eu... soltei "um pouco" o tênis do pé... a minha amiga chutou para a parede... mas eu... joguei para o nada e aí... foi...
fps, 07/10/2026, 20:19
(ainda pensando em como contar isso para a mãe dela...)








