Eis aqui listados os dez arquétipos do esquerdista brasileiro.
O top 10 para reconhecê-los em sociedade antes que eles comecem a explicar como funciona a luta de classes — de preferência, enquanto você paga a conta das excentricidades deles.
1. A burguesinha revolucionária do Instagram.
Apartamento em Pinheiros pago pelo papai, stories sobre a luta de classes e fotos de férias em Trancoso. Dá lições de moral em carrosséis de dez slides, com fonte minimalista e fundo bege. Defende a taxação das grandes fortunas, desde que ninguém confunda a fortuna da família com o próprio patrimônio afetivo. Conhece a classe trabalhadora por documentários, podcasts e pela moça que limpa seu apartamento três vezes por semana.
2. O cicloativista de ocasião.
Mora em Santa Cecília, em São Paulo, ou na Zona Sul do Rio. Odeia carros, congestionamentos e estacionamentos — pelo menos até precisar pegar o SUV da família para passar o feriado em Campos do Jordão ou Búzios. Participa de manifestações pelo clima na quarta-feira e embarca para a Europa no sábado. Sua contribuição para a sustentabilidade é uma ecobag que custou R$ 180 e a convicção de que a solução para o trânsito é todo mundo fazer exatamente o que ele faz.
3. O revolucionário de universidade federal.
Quer abolir o capitalismo antes de terminar o curso de Ciências Sociais. Participa de assembleias, organiza centros acadêmicos e explica a exploração do proletariado usando um MacBook comprado pelos pais. Tem certeza de que a iniciativa privada é moralmente suspeita, mas não dispensa um estágio remunerado em uma grande consultoria. Em cinco anos, estará trabalhando para um banco ou uma multinacional, defendendo a responsabilidade social corporativa e dizendo que a vida real é mais complexa do que a teoria.
4. O sociólogo de LinkedIn.
Nunca administrou uma empresa, nunca precisou fechar a folha de pagamento de uma equipe e talvez nunca tenha contratado ninguém. Ainda assim, sabe exatamente por que toda empresa é uma estrutura de dominação e por que todo empresário é um explorador em potencial. Publica textos sobre a precarização do trabalho entre uma bolsa de pesquisa e outra, frequentemente sem reconhecer que também depende de instituições, orçamentos e contribuintes. Para ele, o problema nunca é o Estado gastar mal: é o Estado não gastar o suficiente na direção que ele considera correta.
5. O startupeiro de impacto social.
Captou milhões de reais para criar um aplicativo que faz praticamente a mesma coisa que outros aplicativos, mas com as palavras “inclusão”, “diversidade” e “transformação social” na apresentação para investidores. Fala mal da obsessão pelo lucro no LinkedIn e comemora discretamente a valorização da própria participação societária. Seu modelo de negócios é salvar o mundo, desde que a rodada de investimento seguinte seja maior que a anterior.
6. O herdeiro da esquerda caviar.
Tem apartamento próprio, casa na praia e sobrenome conhecido nos círculos certos. Defende a reforma agrária, a taxação das grandes fortunas e o fim dos privilégios históricos. Só não gosta quando alguém sugere começar pelo patrimônio da própria família. Afinal, o caso dele é diferente: não se trata de privilégio, mas de “construção patrimonial”, “planejamento sucessório” e “complexidade tributária”. A revolução, naturalmente, pode esperar até depois do almoço no restaurante em que o prato custa o salário semanal de muita gente.
7. O homem desconstruído profissional.
Começa toda frase com “enquanto homem branco, cis e privilegiado, eu preciso reconhecer...”. Depois de reconhecer, passa vinte minutos explicando como chegou à conclusão. É aliado de todas as causas, conhece o vocabulário de todas as militâncias e consegue transformar qualquer debate sobre mulheres, negros ou trabalhadores em uma oportunidade para demonstrar a própria consciência social. Está sempre disposto a ceder o protagonismo — desde que seja ele quem anuncie a cessão.
8. O artista da resistência financiada.
Sua peça sobre a fome, a desigualdade e o abandono dos trabalhadores recebeu recursos públicos, apoio de uma fundação e patrocínio por meio de uma lei de incentivo. A estreia reuniu 35 pessoas, incluindo elenco, equipe técnica e outros artistas contemplados em editais. Ele considera o público desinteressado, a imprensa conservadora e a falta de recursos o único motivo pelo qual sua obra ainda não transformou a sociedade. Quando alguém pergunta pelos resultados, responde que a arte não pode ser medida por critérios mercadológicos. Quando pergunta pelo próximo edital, entretanto, conhece todos os prazos.
9. O jornalista objetivamente progressista.
Não faz militância, faz jornalismo. Não tem lado, tem compromisso com a verdade. Curiosamente, certas pautas recebem manchetes enormes, enquanto outras ganham uma nota escondida no fim da página. Determinadas manifestações são descritas como atos democráticos; outras, como ameaças à democracia. Ele garante que tudo isso decorre exclusivamente de critérios técnicos de edição. Quem percebe uma possível seletividade editorial é acusado de não compreender a complexidade da imprensa. E quem aponta o mesmo problema no campo político oposto recebe, em algumas ocasiões, o benefício da dúvida.
10. O prefeito anticarro de condomínio.
Transformou uma avenida em corredor de ônibus, instalou ciclovias, eliminou vagas de estacionamento e reorganizou o trânsito para tornar a cidade mais sustentável. Até aí, tudo bem: planejamento urbano é assunto sério. O problema começa quando as mudanças são feitas sem alternativas adequadas para quem mora longe, trabalha em horários difíceis ou depende do carro porque o transporte público não resolve sua vida. Enquanto o trabalhador descobre que o trajeto de 40 minutos virou uma viagem de duas horas, o prefeito participa de um evento sobre mobilidade sustentável e segue para o próximo compromisso com uma estrutura de transporte que o cidadão comum não tem.
O ponto em comum entre todos eles?
A convicção de estar do lado certo da História — mesmo quando o cotidiano revela uma distância considerável entre o discurso e a prática.
Conhecem a classe trabalhadora pelos levantamentos do IBGE, a pobreza pelas estatísticas, a periferia pelas campanhas eleitorais e a desigualdade pelos seminários. Defendem os mais pobres, mas nem sempre convivem com eles; criticam os privilégios, mas nem sempre reconhecem os próprios.
No fim, a contradição não está em ser de esquerda, ter dinheiro, estudar em uma universidade pública, usar bicicleta ou receber recursos para produzir arte. Está em exigir dos outros uma coerência que a própria pessoa não está disposta a praticar.
Porque, no Brasil, até a revolução pode virar um produto de luxo — com financiamento, assessoria de imprensa e estacionamento com manobrista.
(original em https://x.com/brivael/status/2112630965277454615)










