21.10.26

Os 10 arquétipos da esquerda brasileira: como reconhecê-los antes que venham explicar o Brasil para você


Eis aqui listados os dez arquétipos do esquerdista brasileiro. 

O top 10 para reconhecê-los em sociedade antes que eles comecem a explicar como funciona a luta de classes — de preferência, enquanto você paga a conta das excentricidades deles.

1. A burguesinha revolucionária do Instagram.

Apartamento em Pinheiros pago pelo papai, stories sobre a luta de classes e fotos de férias em Trancoso. Dá lições de moral em carrosséis de dez slides, com fonte minimalista e fundo bege. Defende a taxação das grandes fortunas, desde que ninguém confunda a fortuna da família com o próprio patrimônio afetivo. Conhece a classe trabalhadora por documentários, podcasts e pela moça que limpa seu apartamento três vezes por semana.

2. O cicloativista de ocasião.

Mora em Santa Cecília, em São Paulo, ou na Zona Sul do Rio. Odeia carros, congestionamentos e estacionamentos — pelo menos até precisar pegar o SUV da família para passar o feriado em Campos do Jordão ou Búzios. Participa de manifestações pelo clima na quarta-feira e embarca para a Europa no sábado. Sua contribuição para a sustentabilidade é uma ecobag que custou R$ 180 e a convicção de que a solução para o trânsito é todo mundo fazer exatamente o que ele faz.

3. O revolucionário de universidade federal.

Quer abolir o capitalismo antes de terminar o curso de Ciências Sociais. Participa de assembleias, organiza centros acadêmicos e explica a exploração do proletariado usando um MacBook comprado pelos pais. Tem certeza de que a iniciativa privada é moralmente suspeita, mas não dispensa um estágio remunerado em uma grande consultoria. Em cinco anos, estará trabalhando para um banco ou uma multinacional, defendendo a responsabilidade social corporativa e dizendo que a vida real é mais complexa do que a teoria.

4. O sociólogo de LinkedIn.

Nunca administrou uma empresa, nunca precisou fechar a folha de pagamento de uma equipe e talvez nunca tenha contratado ninguém. Ainda assim, sabe exatamente por que toda empresa é uma estrutura de dominação e por que todo empresário é um explorador em potencial. Publica textos sobre a precarização do trabalho entre uma bolsa de pesquisa e outra, frequentemente sem reconhecer que também depende de instituições, orçamentos e contribuintes. Para ele, o problema nunca é o Estado gastar mal: é o Estado não gastar o suficiente na direção que ele considera correta.

5. O startupeiro de impacto social.

Captou milhões de reais para criar um aplicativo que faz praticamente a mesma coisa que outros aplicativos, mas com as palavras “inclusão”, “diversidade” e “transformação social” na apresentação para investidores. Fala mal da obsessão pelo lucro no LinkedIn e comemora discretamente a valorização da própria participação societária. Seu modelo de negócios é salvar o mundo, desde que a rodada de investimento seguinte seja maior que a anterior.

6. O herdeiro da esquerda caviar.

Tem apartamento próprio, casa na praia e sobrenome conhecido nos círculos certos. Defende a reforma agrária, a taxação das grandes fortunas e o fim dos privilégios históricos. Só não gosta quando alguém sugere começar pelo patrimônio da própria família. Afinal, o caso dele é diferente: não se trata de privilégio, mas de “construção patrimonial”, “planejamento sucessório” e “complexidade tributária”. A revolução, naturalmente, pode esperar até depois do almoço no restaurante em que o prato custa o salário semanal de muita gente.

7. O homem desconstruído profissional.

Começa toda frase com “enquanto homem branco, cis e privilegiado, eu preciso reconhecer...”. Depois de reconhecer, passa vinte minutos explicando como chegou à conclusão. É aliado de todas as causas, conhece o vocabulário de todas as militâncias e consegue transformar qualquer debate sobre mulheres, negros ou trabalhadores em uma oportunidade para demonstrar a própria consciência social. Está sempre disposto a ceder o protagonismo — desde que seja ele quem anuncie a cessão.

8. O artista da resistência financiada.

Sua peça sobre a fome, a desigualdade e o abandono dos trabalhadores recebeu recursos públicos, apoio de uma fundação e patrocínio por meio de uma lei de incentivo. A estreia reuniu 35 pessoas, incluindo elenco, equipe técnica e outros artistas contemplados em editais. Ele considera o público desinteressado, a imprensa conservadora e a falta de recursos o único motivo pelo qual sua obra ainda não transformou a sociedade. Quando alguém pergunta pelos resultados, responde que a arte não pode ser medida por critérios mercadológicos. Quando pergunta pelo próximo edital, entretanto, conhece todos os prazos.

9. O jornalista objetivamente progressista.

Não faz militância, faz jornalismo. Não tem lado, tem compromisso com a verdade. Curiosamente, certas pautas recebem manchetes enormes, enquanto outras ganham uma nota escondida no fim da página. Determinadas manifestações são descritas como atos democráticos; outras, como ameaças à democracia. Ele garante que tudo isso decorre exclusivamente de critérios técnicos de edição. Quem percebe uma possível seletividade editorial é acusado de não compreender a complexidade da imprensa. E quem aponta o mesmo problema no campo político oposto recebe, em algumas ocasiões, o benefício da dúvida.

10. O prefeito anticarro de condomínio.

Transformou uma avenida em corredor de ônibus, instalou ciclovias, eliminou vagas de estacionamento e reorganizou o trânsito para tornar a cidade mais sustentável. Até aí, tudo bem: planejamento urbano é assunto sério. O problema começa quando as mudanças são feitas sem alternativas adequadas para quem mora longe, trabalha em horários difíceis ou depende do carro porque o transporte público não resolve sua vida. Enquanto o trabalhador descobre que o trajeto de 40 minutos virou uma viagem de duas horas, o prefeito participa de um evento sobre mobilidade sustentável e segue para o próximo compromisso com uma estrutura de transporte que o cidadão comum não tem.

O ponto em comum entre todos eles?

A convicção de estar do lado certo da História — mesmo quando o cotidiano revela uma distância considerável entre o discurso e a prática.

Conhecem a classe trabalhadora pelos levantamentos do IBGE, a pobreza pelas estatísticas, a periferia pelas campanhas eleitorais e a desigualdade pelos seminários. Defendem os mais pobres, mas nem sempre convivem com eles; criticam os privilégios, mas nem sempre reconhecem os próprios.

No fim, a contradição não está em ser de esquerda, ter dinheiro, estudar em uma universidade pública, usar bicicleta ou receber recursos para produzir arte. Está em exigir dos outros uma coerência que a própria pessoa não está disposta a praticar.

Porque, no Brasil, até a revolução pode virar um produto de luxo — com financiamento, assessoria de imprensa e estacionamento com manobrista.

(original em https://x.com/brivael/status/2112630965277454615)

16.10.26

Poesia

Meu lado interno se sente invadido.

Eles virão ocupar meu espaço.

E...

... que farei eu?


Sorrir, como um idiota.


Porque... não basta eu. Nunca bastou.

fps, 16/10/2026, 19:59 

7.10.26

Prosa: Minha filha é uma figurinha - I



O tênis que voou

Cinco e meia da tarde, hora de quebrar um pouco o expediente em "home office" para reencontrar minha filha no colégio e trazê-la para a segurança de seu lar. Cada vez menos pequenina - mas não menos arteira.

Arruma a mala, primeira marcha, o carro segue o curso, quase no automático - e a pequena começa:

- Paiê... 'cê não vai ficar bravo comigo...?

Como todo pai já estava esperando alguma bomba, tipo zerar uma prova, receber advertência, ter comido alface e fruta no almoço... não, isso seria bom, muito pelo contrário... seria chocante, mas seria bom...

Nisto, como já não dava para esconder muito tempo mais, vem o disparo:

- Eu joguei o meu tênis por cima do muro do colégio.

Hmmm...

- Você... O QUÊ...?

Paro o carro. Observo, fazendo algumas perguntas e checando o ambiente: "qual o tênis?... esse aqui?... ufa, não perdeu... mas.. er... como é que isso é possível, gente... não dá, não faz sentido...".

 E a pequena começa a explicar, no melhor estilo "metralhadora giratória":

- Foi assim, a minha amiga foi mostrar um golpe que tinha aprendido no jiu jitsu da escola e fez um chute, assim (neste momento mostra o chute, ou o pé que deu o golpe)... só que eu mandei para o lado errado e aí... o tênis voou...

"o tênis voou... como é que um tênis voa... esse tênis... esse tênis não tem cadarço, não é maior que o pé dela... não tem asa... como, como, COMO É QUE UM TÊNIS DESSE VAI VOAR, GENTE????"...

- 'cê não vai ficar bravo, pai? Me deixar de castigo?

- Não, filha... o tênis está aí, você o recuperou... porque é que eu ia ficar bravo com isso? Pior seria se tivesse perdido ele e você tivesse ficado descalça, e a gente correndo para levar outro par pra você...

Pausa rápida, e a pergunta:

- ... só não entendi uma coisa: como é que esse tênis "voou" do seu pé? Não entendo isso...

E ela:

- Sabe o que é... é que a gente estava ensaiando golpes, e eu... soltei "um pouco" o tênis do pé... a minha amiga chutou para a parede... mas eu... joguei para o nada e aí... foi...

fps, 07/10/2026, 20:19

(ainda pensando em como contar isso para a mãe dela...) 


4.8.26

São Paulo. Antes.

Não gosto de viajar. 

Não gosto do povo se gabando, da multidão de turistas, dos que vivem de gastar o que podem e o que não podem para tirar fotos instagramáveis ao extremo, esbanjando falsas certezas e sensações para um mundo que, no final, não se importa com o que exibem à exaustão.

Dito isso, viajo. Porque amo minha família - e detesto a ideia de ver uma filha na TV e uma esposa na cozinha durante todo o tempo de férias. Porque preciso, viajo - e porque os amo, suporto.

Sim, porque suportar é uma arte - principalmente quando se tem (má) fama de eremita, e colegas e amigos "animados" dispostos a falar, e falar, e falar...

... e gastar, e esnobar, e se gabar - não necessariamente nesta ordem.

...

Lembra-me Foz do Iguaçu, lugar que preciso rever, para acabar com a sina: na primeira vez fiquei no quarto com dois especialistas em bullying, eles não fizeram nada mas fiquei com tanto medo que passei três dias sem tomar banho.

Quanto à segunda, pior: a Receita me para na alfândega no Paraguai, um cretino, canalha, sem vergonha passa na minha frente - me deixando com cara de babaca na frente de todos (fora ter furado o pneu do carro e ouvir alguém berrando para passar o telefone para quem seria capaz de resolver o problema...).

...

A preparação da viagem foi tensa: ninguém acreditava que iriamos. Este que vos escreve, contudo, pode detestar viagens - mas as organiza em casa.

Irônico? Sim, mas também reflexo de algo que utilizei, em minha vida, para evitar a sensação amarga de quem já chorou muito por pagar mico: não importa o que ocorra nada destas viagens é para me agradar.

Vontades? Esqueço isso: só quero chegar em casa bem. 

Descansar, descanso depois - é melhor pensar assim que se frustrar por ser preterido em alguma coisa (alguma? muitas, como convém a um marmanjo que não é digno de pena...).

...

Passagens compradas, mala arrumada (com direito a chilique), hotel e etc. - tudo pronto!

Boa viagem - e boas histórias.

22.7.26

Prosa, revisitada: Gabinete

 

Francamente... nem saberia dizer porque vim aqui. 

Quer dizer, eu sei o porquê: tenho o coração amargurado, e dividido. 

A dor do erro não é maior do que a resignação indignada, de quem vê que produz muita coisa mas não mostra o seu melhor... 

... e não sabe como mostrar-se, porque sabe que para cada pancada na ferradura surge outra, no lombo e na vida.

...

Lembro da infância. 

De ser bonzinho, dos estereótipos de quem nasceu com inteligência, mas foi desprovido de esperteza - e de capacidade para entender a vida.

Lembro do lado quietinho, do pouco fôlego para as brincadeiras, de não ser bom no gol - e ser péssimo na linha; das novas selas e dos livros, e...

... bem, não vou levar isso para o chororô. 

...

Estou chateado, machucado, mas admito: não é bom sentir-se ovelha negra, só cantora famosa - e bem de vida - pode dar-se ao luxo de cantar desse jeito.

Mas é que...

... de repente começou a doer lembrar dele.

DELE.

DELE.

Dele.

...

Que fim terá levado? 

...

Não sei, talvez hoje esteja velho, caquético... feio, bobo... burro.


Dizia saber caratê. Acabou querendo me dar mais do que isso. 

Ou melhor...

... ah, olha aqui eu levando isso para o chororô, a autocomiseração desnecessária...


Que é isso, sou homem feito, casado - 

PAI!

Pai... pai...

...

Não tenho que chorar por... por sentir-me só, com meus botões, livros e escritos, pelo medo da violência, da desvirtuação do próprio ser, do isolar-se, sentir-se podre, feio, bobo, mau...

... triste ...

... sabe, até que valeu a pena vir aqui. Obrigado.

...

Domingo, talvez, não tome o pão ou o vinho. 

O coração aceita a "dura", é verdade.

O cérebro, porém, finge divagar... 

e não se conforma de que estes escritos não possam ser um traço, um espaço, um pequeno ponto que permita dizer que sou... 

alguém.

...

Obrigado, mais uma vez.

Obrigado.


fps, 03/11/2023, 17:33