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24.6.26

Dois. (ou: o candidato a ministro)


Dezessete horas, quarenta e cinco minutos. 

No metrô, lotado, um sonhador - entre um e outro tranco dos transeuntes e acompanhando o ruído das composições e dos sinais sonoros das estações - vai pensando em como tem sido sua vida, desde que tomara as decisões intempestivas que transformaram sua vida numa montanha russa, de emoções, prazeres, choques culturais e (porque não) contradições...

... inerentes a quem escolheu cursar o seminário e a faculdade - ao mesmo tempo.

...

Eunice teve um filho. Quando perguntaram qual seria o nome, foi direto ao ponto:

- Timóteo.

Nome de servo, presbítero amado, discípulo, ministro... resumindo: pastor.

O pai não concordou com a escolha. Além de feio, julgava que um nome bíblico demais atrapalharia a carreira de um futuro médico, engenheiro, advogado...

Tentou outros nomes. Mateus, Tiago, Lucas... Matheus, Thiago... Lucas...

- Não.

A esposa estava irredutível: queria Timóteo, não abria mão desse nome - que o então marido, se fosse frequentador de igreja evangélica desde a infância, como ela, entenderia de imediato.

...

"Uma Eunice... realmente... só poderia chamar o filho de Timóteo... ainda mais ela..." 

Assim pensou o pastor que batizou Timóteo Carlos Ribeiro - sendo que o "Carlos" em questão era o pai, que conseguiu colocar algo de seu no nome do fedelho. 

Dele, porém, falaremos mais tarde. Interessa-nos, agora, botar nosso foco na mãe.  

....

Eunice Ribeiro, mais conhecida como "Nice" - e, com o tempo, "dona Nice". 

Cristã, evangélica, protestante de nascimento, opção e coração. Líder entre as crianças, adolescentes, professora infantil na EBD, coralista... presidente disso e daquilo, secretária e superintendente daquilo outro... comprometida com tudo e mais um pouco na sua Igreja local.

Alguém assim estaria fadada a ser mulher de pastor, quem sabe missionário, dedicando-se à obra. Presbítero, no mínimo - diácono seria pouco, diziam alguns e algumas, e por isso...

... por isso mesmo é que ninguém entendeu quando ela começou a namorar o Carlinhos, conhecido por seus trabalhos como advogado "pro bono", um Puma 78 amarelo impecável - e um ateísmo convicto, do tipo que briga com pastor na Praça da Sé por estar dizendo "porcarias" em público....

...

"Carlinhos. Carlos Machado. Dr. Carlos..."

Corte abrupto: o som esganiçado da musiquinha avisa que o espadaúdo jovem branco de 1m82 e cabelos negros sempre bem cortados chegou ao seu destino. Desconte as olheiras, naturais para quem vive na correria absurda provocada por suas escolhas - Timóteo, ou Tim, é um homem cujo coração de ouro, tom professoral e voz de locutor aumentam a sua natural beleza...

... apesar de um jeito desligado e atitudes inexplicáveis, como esquecer-se de que o seu destino está a meia hora de caminhada da estação. À noite. 

E ele (desta vez) está (bem) atrasado.

"É... melhor pegar o Uber agora e arrumar a moto para amanhã...".

...

- Aviso prévio, Luna? Por causa do atraso?

- Não, pai... fui eu que pedi...

21.6.26

Um. (ou: porque tudo tem um começo...)



- Hmmmm... zzzz... uhmmmm... zzzzz...

A janela do quarto, mesmo fechada, deixava passar alguns raios mínimos de sol, o suficiente para anunciar que lá fora o dia já estava engatando a segunda marcha. Dentro do quarto, porém, uma singela mocinha se recusava a sair do gostoso estado de letargia que só um colchão fofo e cobertas quentinhas podem proporcionar... 

... claro, isso apenas se a pessoa em questão tiver tempo para aproveitar tudo isso.

- Lu... Lu... acorda, Luna! Sete da manhã...

Nossa pequena abre os olhos - não imediatamente, claro; e nem os dois de uma vez, dado que o frio do inverno paulistano convida a chocolate quente, cama e colinho de mãe, ainda que não necessariamente nesta ordem. Seria um cenário ótimo para a preguiça - a não ser pelo detalhe do calendário: terça.

E o batente, hoje, é às nove. Em ponto. Sem dó.

 ...

- LUCIANA VALENTINA, ACORDA ou VOCÊ vai se ATRASAR para o trabalho DE NOVO!!!!!

O berro descompassado da mãe, que sabia tanto levantar falsos moribundos como ser ouvida de longe por mecânico cuidando de motor V8 de Chevrolet antigo, serviu. O corpo se levanta e segue para o banheiro, com a alma ainda em estado de suspensão, num lugar desconhecido, começando toda uma sequência de cuidados, essencial para o bem estar de Luciana pelo resto de seu dia.

Depois de um banho não muito demorado - já que não custa lembrar: ela está atrasadíssima - o cenário de caos organizado vai, aos poucos, se revelando a silhueta extremamente alinhada de uma garota de 21 anos, vestida com saia e blusa de alfaiataria, camisa branca e sapatos de salto não muito alto, que revelam uma beleza bem brasileira (de corpo e de rosto) e um rosto de boneca russa (talvez italiana). 


Uma tiara vermelha emoldura o loiro dos cabelos, e o óculos de "gatinha" completa o visual: eis Luna Valentina, estudante de Direito, pronta para um dia de muito trabalho, estudo - e muitas emoções.