Prosa

Jornal de domingo

Domingão para mim, além de ser uma tormenta habitual para acordar cedo, é dia de ler jornal, assim como a maioria dos brasileiros que mora nas grandes cidades e relembra a semana a partir do momento em que pega o calhamaço que se chama jornal de domingo para a leitura diária. Em outros dias, essa leitura se faz mais rápida, quase como uma reposição: no domingo, porém, tal fato se reveste de uma habitualidade tão grande que as vendas quase quadruplicam, sabe-se lá por quê (bem, houve um tempo em que se comprava o jornal e levava uns brindes p´ra casa, mas a prática foi abortada depois que passaram a cobrar por isso...).
 
O jornal de domingo, em Sampa, seja ele Folha ou Estadão, é sempre um calhamaço de dez a doze cadernos, com as matérias da semana, as notícias de diferentes níveis, não sei quantas partes de classificados (e, como sempre, com muito anúncio colorido e um "release" de conteúdos minúsculo, e que me perdoe o Aldo Rebelo por eu não ter achado melhor palavra em português para definir esse tipo de textos) e uma revista de variedades, além do jornal de TV que minha mãe insiste em chamar de folhinha e me obrigar a procurá-la para ler as colunas de novelas de sempre (era mais fácil eu separar a folha das novelas logo, assim pelo menos o resto eu lia, mas tudo bem, eu leio depois).
 
Lendo o jornal, paradas em determinados cadernos: os editoriais, e os comentários que vão de encontro ao que o depto. Comercial ... digo, o depto. Editorial dos periódicos pensa a respeito das notícias; as colunas de domingo, sempre diferentes; o caderno de esportes, o único que é atualizável no domingo (e o único que não parece notícia requentada); o caderno de economia, e os mesmos indicadores econômicos de sempre, etc. e tal. É engraçado dar uma parada, ainda, na revista dominical e nas colunas segmentadas, em que se não se sabe direito para que o "politicamente correto" serve; entretanto, é muito gostoso ver o tipo de conversa que pode surgir daí, e pensar se não há um desnível entre o que se pensa e o que se faz, de fato.
 
O tempo passa, já li o jornal todo e talvez uma releitura se faça necessária; entretanto, já é hora do almoço e minha mãe me chama. Antes, porém, tenho que reorganizar todo o jornal e pô-lo no canto, talvez tirar alguma coisa para ler mais tarde; entretanto, depois de lida toda aquela informação, me pergunto se esse ritual vale alguma coisa, se todos os fatos correspondem ao real ou são apenas a minha impressão dos fatos, enquanto discuto com meu pai os motivos da queda da bolsa e da subida nas pesquisas de certo político safado, e por aí vai ... até que o estômago e o cheiro do macarrão encerram as discussões, até o próximo domingo, quando tudo se repete de novo.
 
É, nada como o domingo de sempre.

 

Fábio Peres da Silva
23/10/00, 16:30

Comentários

  1. Pois é... assim como os domingos são iguais, os jornais também são iguais, e a gente acaba lendo por obrigação (eu, como jornalista, sou obrigada!). O correto seria ler por prazer e interesse, não é? Sim, mas os jornalões insistem em um modelo falido. Depois reclamam da queda nas vendas e das crises de credibilidade. Ora, uma coisa leva à outra.

    Beijo

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