14.11.13

Prosa, republicada



Panorâmica das conversas ao telefone
- Pronto.
- Oooooooiiiiii-mor-zin ....
Você já sabe - vai demorar ...
- Oi, querida. Tudo bem?
- Ai-querido-você-não-sabe-o-que-me-aconteceu-hoje ...
Xi ... vai demorar mesmo ...
- Ótimo que seja assim, meu anjo - fala então o que é que ...
- Ai-querido-foi-a-Mariane. A-gente-tava-no-serviço-fazendo-mais-um-relatório-daqueles-malucos-que-a-chefe-SEMPRE-pede-quando-tem-problema-de-checagem-de-conta. Ai-ela-pediu-aquele-relatório-e-a-coitada-errou-TUDO !!! Você-nem-imagina:ela-com-cara-de-trouxa-e-a-gente-tendo-que-correr-para-ver-o-que-é-que-tava-errado-e-o-que-que-não-batia ... e-a-chefe-lá-SEMPRE-com-aquela-cara-amarrada ...
E assim segue pela próxima meia hora, com pausas para um "sim, querida", ou um "não, querida", e quando você, num lapso pequeno de tempo, boceja ...
- O que foi isso?
- Ah??? Nada, não, amor, é que ...
- EU SABIA!!! Você-não-estava-ouvindo-nada-do-que-eu-estava-falando-seu ... seu ... seu ... SEU INSENSÍVEL !!! BUAAAAAAA ....
E toca mais meia hora de "não, querida, não é isso, você se enganou" - e é nessas horas que você mostra que sabia alguma coisa do que ela falava mesmo, que a tal da Mariane era mesmo uma banana, que ela toca o serviço nas costas, que - sim !!! - você ama muito ela e coisa e tal e coisa e lousa e maripousa (como diria o antigo cronista), até que ela, finalmente, se acalma.
Dá uns quinze minutos e estamos perto do final dessa estória:
- Ah, querido, vou-desligar-agora ... mas-tô-cum-tanta-saudade-docê ...
- Ummm ... lindinha, vem cá cum seu nenezão ... (pausa para reflexão: porque todo homem age como bebê nessas horas? nunca entendi essa ...)
- Tá-bom-morê. Beijinhu ...
Ela desliga, do lado de lá.
E você, do lado de cá, suspira - e não sabe se é de alívio ou se é mesmo por causa de uma grande saudade ....

fábio peres da silva
28/08/02, 16:51

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