Malandro é malandro, mané é mané - ou: Porque o brasileiro (acha que é) feito de otário - parte I

Este país do qual me orgulho, com seu povo ordeiro que é feito de bobo pelo governo não cansa de me surpreender - e, em tempo, estou sendo irônico nesta frase, brasileiro não tem nada de bobo ou ingênuo, mas justamente por ser metido a esperto merece o governo que tem.

À mata fria, que explica esse "post": matéria recente do Estadão elencou seis motivos pelos quais o motorista brasileiro é, supostamente, feito de trouxa. Nada a respeito de nossos recordes de acidentes, mesmo com uma das legislações mais restritivas quanto ao álcool e com exigências duríssimas quanto à segurança - e com números altíssimos de falecimentos, que só não são maiores graças ao cinto de segurança, capacete e bebê-conforto, de uso obrigatório.

É um fato, contudo, que #mimimi gera #mimimi - e os leitores do Estadão arranjaram 36 motivos para dizer que "somos manés", otários escalpelados por um governo safado que só quer se aproveitar do nosso dinheiro. Típico argumento "classe média sofre", pois, como se pode comprovar, o indivíduo classe AB, que menos paga imposto e mais contravenções faz, é via de regra o chorão que pede menos Estado (a não ser para prender os outros) e mais liberdade, até para cometer seus delitos comuns de cada dia.

...

Dá para provar que esse pessoal está reclamando de barriga cheia. 

Como? Esquadrinhando os "motivos para ser feito de otário"e dizendo porque, afinal de contas, não somos os trouxas enganados, mas espertinhos que, de tanto tentar fazer o governo (e os outros) de trouxas, são tutelados por uma administração pública que, bem lá no fundo, não confia na gente (e deveria?).




1) ‘Radares pegadinha’ nas estradas, em trechos onde a velocidade máxima é reduzida para pegar distraídos.

Amigo, entenda uma coisa: se aquela placa diz para você não passar dos 40, NÃO É PARA PASSAR DOS 40!!! É difícil entender o sentido de "velocidade máxima", ainda que alguns estudiosos queiram fazer os carros pararem na rua para você, enfim, andar de bicicleta?

2) Carros populares custam R$ 40 mil no Brasil

Impostos, custo Brasil, tropicalização - e um público que gosta de pagar caro. Não ria, essa é a realidade - esnobar porque comprou um carro caríssimo é coisa típica de brasileiro.

3) Não há para quem reclamar, pois quem aprova as leis recebe propina para a aprovação.

Ou é influenciado por pessoas que dizem que sabem o que o brasileiro quer, mas acabam metendo os pés pelas mãos. Para se ter uma ideia, quem aprovou as ciclovias em São Paulo, hein?

4) O IPVA custa caro, mas ainda tem de pagar pedágio.

Imposto pela PROPRIEDADE de Veículos Automotores. Você paga porque tem carro: é isso.

5) Não existe opção de transporte de ônibus ou metrô e a saída é financiar um carro.

Bom, quem disse que você não tem opção? Tem ... tem ... bicicleta, uai ...

6) Quando existe opção, o transporte público é muito ruim e demorado.

Culpa de uma política pública que dificulta ao máximo a existência de alternativas viáveis, e confortáveis, para o cidadão - que acaba pagando para ser transportado como gado, e que acaba se jogando no carro como única alternativa decente de locomoção.

7) A energia elétrica vai ficar mais cara, o gás de cozinha, a carne de boi…

Epa! Não fala isso não! Para que quase quebramos a Petrobras, hein?

8) Muitos motoristas são contra as ciclovias, o que é uma prova de estupidez (...)

Hum ... vejamos ... ciclovias que ligam o nada a lugar algum, que matam os negócios ao redor delas (pois quem anda de carro não tem como estacionar na rua), em uma cidade cuja topografia não ajuda o uso da bicicleta e que foram implementadas sem consultar a população a respeito. 

A não ser que você seja um cicloativista do tipo chato, que quer encontar "n" argumentos para dizer que seu meio de transporte é o ideal, eu digo: ciclovia é prova da estupidez dominante do governo de plantão - e de uma sociedade que não sabe se casa, ou se compra uma bike e sai sem destino por aí.

9) Pagar R$ 80 mil em um Ecosport é ‘indício de demência’ (...)

Vide número 4: a gente paga porque gosta.

...

Eram 36 motivos, mas 9, por hoje, já está bom. Voltaremos ao assunto.

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