Dezesseis



Dezesseis anos é a idade em que não se é maior, mas já deixamos de ser "de menor" faz tempo.

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Nos dezesseis se está chegando ao ensino médio. Primeiro ano, mais exatamente. 

Se rico, você vai correr como um doido nos próximos dois anos naquela escola particular para "comer" a matéria do antigo 2º grau e ficar no último terço do curso se matando para a dobradinha ENEM-vestibular - isso se o cursinho à tarde não tomar o restante do seu tempo. 

Adeus aulas de inglês, judô e canto lírico. Está bem, eu exagerei: canto lírico não é o seu forte.

Passará na USP, ou em uma grande universidade. Despesas pagas, pelos pais, até os 24 anos - e, depois, a vida que der na telha. Até largar tudo, se quiser, por uma grande aventura.

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Se classe C, vai correr como um doido, para recuperar o tempo que perdeu na greve dos professores. 

Se puder, pagará um pré-vestibular com as economias dos pais - ou com o que eles espremerem de um orçamento mais enxuto que corpo de modelo esquálida. Terá sorte se conseguir um cursinho gratuito.

No geral, vai estudar bastante. Talvez passe em uma pública - mas, no geral, fará uma faculdade privada, paga com cada centavo de um trabalho qualquer obtido em busca da sobrevivência.

Dormirá em aulas. Estudará por apostilas (se bem que o rico também faz isso). Terá defasagens de ensino, dificuldades para concentrar-se, cansaço, fadiga, sono. Mas vencerá.

Terminará sua faculdade - e passará anos pagando o FIES e os carnês que vierem em sequência.

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Se da classe baixa (ou bem baixa), seus sonhos já acabaram faz tempo.

Escola? Já abandonou - ou vai abandonar, quando vir que não dá para fazer nada sem dinheiro, nem ter o carrão do rico, ou mesmo o tênis do média-baixa. 

Trabalho é o seu nome. Duro. E isso porque você é trabalhador - e não desonrou sua família, procurando a vida fácil do cidadão que já passou pela Fundação Casa, e se perdeu.

Quando chegar aos 18, poderá ter carteira assinada. Mas sonhos? Ih, esquece ... não é para ti.

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Punir jovens como adultos é uma medida que atende aos anseios da sociedade como um todo. Não há pessoa, seja ela abonada, remediada ou pobre, que não tenha ouvido (ou presenciado) estórias escabrosas, como o amigo que teve o celular roubado ou na esposa agredida na saída do metrô. 

Amplificadas à exaustão pelo "datenismo" da mídia, e por oportunistas de todo tipo, tornam-se o combustível ideal para que se clame por medidas que permitam ao cidadão vingar-se dos menores infratores - mas que, na prática, jogam todo o esforço de 25 anos do ECA no lixo, justamente porque o cidadão "de bem" não olha no adolescente, de qualquer idade, uma criança que está se tornando um adulto.

Talvez porque não seja seu filho que está lá. Ou porque, ora, todo adolescente parece mesmo ser adulto - até o momento em que faz manha, ou pede colo, ou se pega "fazendo arte", brincando.

Como uma criança. Que ele (ou ela), de fato, não deixa de ser. Pelo menos para a ONU.

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Com dezesseis anos você já tem barba, seios, quadris. Já pode transar, fazer filho. Em certos casos, pode até ter direitos - se emancipado, casa e tem negócios. E vota.

Mas com dezesseis anos você é apenas uma criança. Como diriam meus pais, "mal saiu dos cueiros". Não sabe nada da vida. Tem muito a aprender, entender. Muito a viver.

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Criança, ou adulto? Se nem os especialistas sabem, porque eu saberia? Só tenho, porém, uma certeza: é muito tosco - e muito precipitado - responder essa pergunta baseando-se apenas no noticiário da TV.

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