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22.7.26

Prosa, revisitada: Gabinete

 

Francamente... nem saberia dizer porque vim aqui. 

Quer dizer, eu sei o porquê: tenho o coração amargurado, e dividido. 

A dor do erro não é maior do que a resignação indignada, de quem vê que produz muita coisa mas não mostra o seu melhor... 

... e não sabe como mostrar-se, porque sabe que para cada pancada na ferradura surge outra, no lombo e na vida.

...

Lembro da infância. 

De ser bonzinho, dos estereótipos de quem nasceu com inteligência, mas foi desprovido de esperteza - e de capacidade para entender a vida.

Lembro do lado quietinho, do pouco fôlego para as brincadeiras, de não ser bom no gol - e ser péssimo na linha; das novas selas e dos livros, e...

... bem, não vou levar isso para o chororô. 

...

Estou chateado, machucado, mas admito: não é bom sentir-se ovelha negra, só cantora famosa - e bem de vida - pode dar-se ao luxo de cantar desse jeito.

Mas é que...

... de repente começou a doer lembrar dele.

DELE.

DELE.

Dele.

...

Que fim terá levado? 

...

Não sei, talvez hoje esteja velho, caquético... feio, bobo... burro.


Dizia saber caratê. Acabou querendo me dar mais do que isso. 

Ou melhor...

... ah, olha aqui eu levando isso para o chororô, a autocomiseração desnecessária...


Que é isso, sou homem feito, casado - 

PAI!

Pai... pai...

...

Não tenho que chorar por... por sentir-me só, com meus botões, livros e escritos, pelo medo da violência, da desvirtuação do próprio ser, do isolar-se, sentir-se podre, feio, bobo, mau...

... triste ...

... sabe, até que valeu a pena vir aqui. Obrigado.

...

Domingo, talvez, não tome o pão ou o vinho. 

O coração aceita a "dura", é verdade.

O cérebro, porém, finge divagar... 

e não se conforma de que estes escritos não possam ser um traço, um espaço, um pequeno ponto que permita dizer que sou... 

alguém.

...

Obrigado, mais uma vez.

Obrigado.


fps, 03/11/2023, 17:33

24.6.26

Dois. (ou: o candidato a ministro)


Dezessete horas, quarenta e cinco minutos. 

No metrô, lotado, um sonhador - entre um e outro tranco dos transeuntes e acompanhando o ruído das composições e dos sinais sonoros das estações - vai pensando em como tem sido sua vida, desde que tomara as decisões intempestivas que transformaram sua vida numa montanha russa, de emoções, prazeres, choques culturais e (porque não) contradições...

... inerentes a quem escolheu cursar o seminário e a faculdade - ao mesmo tempo.

...

Eunice teve um filho. Quando perguntaram qual seria o nome, foi direto ao ponto:

- Timóteo.

Nome de servo, presbítero amado, discípulo, ministro... resumindo: pastor.

O pai não concordou com a escolha. Além de feio, julgava que um nome bíblico demais atrapalharia a carreira de um futuro médico, engenheiro, advogado...

Tentou outros nomes. Mateus, Tiago, Lucas... Matheus, Thiago... Lucas...

- Não.

A esposa estava irredutível: queria Timóteo, não abria mão desse nome - que o então marido, se fosse frequentador de igreja evangélica desde a infância, como ela, entenderia de imediato.

...

"Uma Eunice... realmente... só poderia chamar o filho de Timóteo... ainda mais ela..." 

Assim pensou o pastor que batizou Timóteo Carlos Ribeiro - sendo que o "Carlos" em questão era o pai, que conseguiu colocar algo de seu no nome do fedelho. 

Dele, porém, falaremos mais tarde. Interessa-nos, agora, botar nosso foco na mãe.  

....

Eunice Ribeiro, mais conhecida como "Nice" - e, com o tempo, "dona Nice". 

Cristã, evangélica, protestante de nascimento, opção e coração. Líder entre as crianças, adolescentes, professora infantil na EBD, coralista... presidente disso e daquilo, secretária e superintendente daquilo outro... comprometida com tudo e mais um pouco na sua Igreja local.

Alguém assim estaria fadada a ser mulher de pastor, quem sabe missionário, dedicando-se à obra. Presbítero, no mínimo - diácono seria pouco, diziam alguns e algumas, e por isso...

... por isso mesmo é que ninguém entendeu quando ela começou a namorar o Carlinhos, conhecido por seus trabalhos como advogado "pro bono", um Puma 78 amarelo impecável - e um ateísmo convicto, do tipo que briga com pastor na Praça da Sé por estar dizendo "porcarias" em público....

...

"Carlinhos. Carlos Machado. Dr. Carlos..."

Corte abrupto: o som esganiçado da musiquinha avisa que o espadaúdo jovem branco de 1m82 e cabelos negros sempre bem cortados chegou ao seu destino. Desconte as olheiras, naturais para quem vive na correria absurda provocada por suas escolhas - Timóteo, ou Tim, é um homem cujo coração de ouro, tom professoral e voz de locutor aumentam a sua natural beleza...

... apesar de um jeito desligado e atitudes inexplicáveis, como esquecer-se de que o seu destino está a meia hora de caminhada da estação. À noite. 

E ele (desta vez) está (bem) atrasado.

"É... melhor pegar o Uber agora e arrumar a moto para amanhã...".

...

- Aviso prévio, Luna? Por causa do atraso?

- Não, pai... fui eu que pedi...

23.6.26

Prosa, revisitada: Vossa Excelência



- Vossa Excelência deve saber o valor da confiança que o povo depositou em suas mãos. Deve compreender que o poder deve ser exercido como mandam as boas normas da democracia, criadas há mais de dois mil e quinhentos anos e adotadas por quase todo o mundo como princípios fundamentais da liberdade que tanto queremos para nós e nossos filhos, e que se resumem na noção de ser a democracia o governo do povo, para o povo e pelo povo !!!.

Aplausos grandiosos enchem o salão nobre do Parlamento, e todos os olhares se dirigem, não ao preletor, considerado Defensor Perpétuo da Pátria e chefe de Estado único do País, mas a quem está sentado à sua direita, aquele que será o novo dirigente do País e que deverá suceder o preletor no comando daquela grande Nação. 

Olhares de admiração contemplam o velho soberano, orgulhoso de suas virtudes e amado pelos seus, e outros tantos observam, calmamente, o futuro mandatário, que deverá ser tão querido e idolatrado quanto aquele que falava naquele momento.

...

- Vossa Excelência, em nossos anos de convivência, sempre provastes ser digno de tal honraria. Provou conseguir o apoio de seu povo, para chegar onde chegou. Em muitos anos de vida pública e privada, jamais vi homem que conseguisse tamanha aprovação em todos os cantos do nosso País, de Norte a Sul, de Leste a Oeste, somente com seu próprio carisma...

Mais aplausos completavam o ambiente festivo. Porém notava-se uma certa seriedade incomum no novo eleito, alguma coisa que destoava do ambiente - pois, naquele momento, o futuro líder olhava para os cantos, pensando consigo mesmo:

“Pois é, enfim chegaste onde queria. Tantas lutas, desilusões, fracassos... e, finalmente, a vitória.

Mas como foi duro chegar aqui! 

Primeiro, as prévias do partido, onde ninguém era de ninguém, e era preciso conquistar os votos "na raça" - custe o que custasse, a qualquer preço que fosse possível pagar (e até o impossível). 

Ganhei, mas por pouco - e que suado! Depois, as eleições. 

Dureza... correr atrás de eleitores, caciques políticos, apertar mãos, beijar pessoas. 

Fui acusado de tudo: safado, canalha, corrupto ... estuprador, assediador, bicha!...

... tudo mentira, o que era verdade a gente manteve em sigilo, sigilo ABSOLUTO, pois não dava p´ra dizer nada, nada, NADA... 

Quantos jantares, meu Deus! Quanta amolação, quantos tapinhas nas costas ... quanta falsidade!”

...

Parou para respirar, mas o pensamento não parava:

“E, no final das contas, aqui estou eu... 

O que virá depois? Serei mal-amado, maltratado, falarão mal de mim pelas costas, virão mais puxa-sacos, mais amolação ... e mais sujeira, e que sujeira!”

Percebia-se na plateia o suor do futuro mandatário. O que seria? 

Emoção? Luz dos holofotes? Talvez... medo?

...

“Não sei se serei capaz de fazer isso. Não vou conseguir. Não vou ...”

- E assim, Vossa Excelência, só posso dizer-lhe uma coisa, agora que lhe passo os símbolos da Nação - que o futuro decida sobre seu destino, e que o povo seja o juíz de seu futuro!

Grandes aplausos, e iniciava-se a parte seguinte da cerimônia: a leitura da declaração de posse do novo governante. Após lê-la, o poder mudaria de mãos definitivamente. Não haveria chances de retorno, não haveria choros, não haveria nada - somente a mudança de poder.

O homem suava mais. Calafrios corriam por seu corpo, e sua mente pensava somente em uma coisa:

“Não vou ... não vou ... não sei se posso ... não vou ....”.

Chega a hora. Levanta-se, vai ao posto de honra e começa a ler:

- Declaro.... declaro que .... declaro solene..mente....que ...

Nesse momento, tudo passa rapidamente por seu cérebro: desilusões, dinheiro, prestígio, poder, glória e um lugar na história. E conclui, sorrateiramente:

“Ora, bolas... que é isso...

Lutei tanto para chegar aqui, neste momento, e vou desistir? 

Não seria justo com o povo, com quem confiou em mim, me deu dinheiro, prestígio e votos... 

... e principalmente, comigo mesmo, porque não? ORA...”

...

- Declaro, solenemente, que aceito a vontade do povo que me elegeu para tão ilustre cargo deste País. Prometo lutar para que a democracia seja firme e sólida, e para que o nosso povo esteja sempre entre os grandes lugares da História. 

ASSIM EU JURO E CONFIRMO. PORTANTO, CUMPRA-SE!”

Aplausos, gritos e saudações marcam o início de uma nova era. O novo líder olha para seu povo, para os que estão junto de si, para dentro de si mesmo ... 

... e sorri, certo de que aquilo que fez realmente estava de acordo com o esperado.


fps, 29/06/2026, 16:35


21.6.26

Um. (ou: porque tudo tem um começo...)



- Hmmmm... zzzz... uhmmmm... zzzzz...

A janela do quarto, mesmo fechada, deixava passar alguns raios mínimos de sol, o suficiente para anunciar que lá fora o dia já estava engatando a segunda marcha. Dentro do quarto, porém, uma singela mocinha se recusava a sair do gostoso estado de letargia que só um colchão fofo e cobertas quentinhas podem proporcionar... 

... claro, isso apenas se a pessoa em questão tiver tempo para aproveitar tudo isso.

- Lu... Lu... acorda, Luna! Sete da manhã...

Nossa pequena abre os olhos - não imediatamente, claro; e nem os dois de uma vez, dado que o frio do inverno paulistano convida a chocolate quente, cama e colinho de mãe, ainda que não necessariamente nesta ordem. Seria um cenário ótimo para a preguiça - a não ser pelo detalhe do calendário: terça.

E o batente, hoje, é às nove. Em ponto. Sem dó.

 ...

- LUCIANA VALENTINA, ACORDA ou VOCÊ vai se ATRASAR para o trabalho DE NOVO!!!!!

O berro descompassado da mãe, que sabia tanto levantar falsos moribundos como ser ouvida de longe por mecânico cuidando de motor V8 de Chevrolet antigo, serviu. O corpo se levanta e segue para o banheiro, com a alma ainda em estado de suspensão, num lugar desconhecido, começando toda uma sequência de cuidados, essencial para o bem estar de Luciana pelo resto de seu dia.

Depois de um banho não muito demorado - já que não custa lembrar: ela está atrasadíssima - o cenário de caos organizado vai, aos poucos, se revelando a silhueta extremamente alinhada de uma garota de 21 anos, vestida com saia e blusa de alfaiataria, camisa branca e sapatos de salto não muito alto, que revelam uma beleza bem brasileira (de corpo e de rosto) e um rosto de boneca russa (talvez italiana). 


Uma tiara vermelha emoldura o loiro dos cabelos, e o óculos de "gatinha" completa o visual: eis Luna Valentina, estudante de Direito, pronta para um dia de muito trabalho, estudo - e muitas emoções.

19.9.25

Poesia



Me aceito
imperfeito,
 
me quero perfeito.
 
Sem jeito.
 

Não tenho conceito.
 
Tenho
preconceito.
 
Procuro, receito.
 
Me quero perfeito, mas sou imperfeito.
 
Tenho um preceito.
 
Mas sigo,
sem jeito.
 
Me quero
perfeito?
 
Mas sou imperfeito!
 
Que droga, me enfeito!
 
E não tenho peito...
 
.. de ser imperfeito.
 
E então, perfeito...
 
... não sou, não tem jeito.


10.9.25

Poesia

 "Sonho um sonho só que não se sonha só sonhando.

Sonho o que sonho, e sonho sonhando um sonho que sonho.


Sonho contigo. Sonha comigo?"


fps, 10/09, 14:51

5.9.25

Poesia: Tudo é você


tudo nessa vida me lembra você...

mar, céu, flor, calor, vida, gosto, doce, salgado, bom, mau, terra...

é tudo você, você, você, você, você, você, você, você, você, você...

você.


fps, 12/09, 11:39

2.4.25

Poesia: Sonho meu



num tempo
em que se sonhava bem mais do que hoje
a elegância discreta de uma moto sussurrante
se fazia notar

o ruído alto
o estrondo...

eram tempos em que a ficha não tinha caído,
e nos quais era possível ter devaneios.



hoje ainda sonho outros sonhos:
 
possíveis.


fps, 02/04/25, 21:15

22.3.25

Poesia

 "Você estava lá, supersatisfeita no seu papel de mãe, pra lá e pra cá...

... e nem percebia que no meu peito fermentava um desejo. 

de liberdade."


fps, 22/03/25, 10:35 

27.10.23

Poesia, sem nome



Queria
te abraçar, te beijar, te amparar... 

nos momentos difíceis te olhar...e dizer: 

tá tudo bem, 


não se preocupe, 

o dia e a noite passam e a alma doída se acalma...


Queria, não: quero. 


Agora. 

Hoje. 

Sempre. 


Pra sempre.



fps, 27/10, 00:30

23.4.23

Poesia: O compasso das estações

 O compasso das estações


Grandiosas palavras,

singelos momentos,

profunda emoção;

são necessidades

que criam no mundo

a pura vontade

da reflexão;

de um novo sentido

para a estação

que se inicia,

a todo momento

em um sentimento,

total redenção.

Tudo isso em um dia,

que sempre se encerra,

tudo isso nas horas

de reflexão.




Tudo isso ao fim

de mais uma estação.



fps, sem data


2.1.23

Poesia: De Otávio para a cobra

  

De Otávio para a cobra

 
Matastes Cleópatra,
ó doce serpente.
 
Não sei se te esgano,
ou se te agradeço.
 
Matastes a vaca,
ó minha amiga.
 
Com teu fatal beijo,
teu beijo de apreço.
 
A tia descansa,
está mui feliz.
 
Pois tu a mataste,
quebraste a cerviz.
 
Finalmente agora
é o fim dessa luta:
 
Pois tu conseguistes,
MATASTES A PUTA !!!
 

Cleópatra, rainha do Egito,
seduziu a César, o mais poderoso de seu tempo,
mas caiu vítima da fúria de Otávio, sobrinho dele.
E que vira, durante anos, a própria tia sofrendo por uma dura traição ...

Fábio Peres da Silva
14/11/03, 15:39 

21.10.22

Poesia

 



"O amor é remédio, 

a beleza, comprimido;

o poder, feromônio,


e a vingança...


... a vingança, amigo, é o gozo."


fps, 21/10, 10:10

12.8.21

Poesia: Não

NÃO.

Não vou mendigar carinho, afeto, abraço, chamego, beijos e tudo o que gostaria.

Se é para endurecer, que seja.


fps, 12/08, 13:04

16.6.21

Poesia: Ela não olha...

 Ela não olha mais para mim.

E eu sonho, com o passado.



Não quero ir mais lá. Não posso.


E só tenho pena da pequena.


Estou cansado de amar, e não ser amado. Apenas isso.


Me ajuda?


fps, 16/06, 23:03


30.5.21

Poesia: Ok, Alexa...

 


 

- Tita, são dez horas. Vamos dormir?

- Ah, não. Quero só mais um pouquinho de chamego.

 

- Tita, são dez e meia. Vamos dormir?

- Ah, não... quero só mais um... uaaaahh...


- Querida, são onze horas...

- Nem vem que não tem, hoje estou muito cansada.

 

E assim caminho, rente ao precipício.

 

fps, 30/05, 22:00