Ainda do Gravata: a resposta do "SIM"

Sabe aquele email com trocentos argumentos para desmoralizar os argumentos do SIM? Alguém resolveu rebatê-los, ponto por ponto - e, embora eu vote NÃO por estar cansado de ver o Brasil fazer leis que não funcionam e tentar ser o bonzinho do mundo Ocidental, esse merece ser copiado na íntegra, já que alguém tinha que rebater os argumentos com maestria.
 
Segue o link para o original: http://gravataimerengue.com/?p=95491745 - e aguardem, para breve: porque fazer ou não fazer referendo no Brasil.
 

Descobri que a arma legal alimenta os bandidos. Todas aquelas AR-15, AK-47, granadas e bazucas que os traficantes do Rio usam foram roubadas de cidadãos honestos que compraram as armas legalmente. Da minha casa mesmo, por exemplo. Ano passado me roubaram quatro mísseis stinger …
 
Pois é. Os assaltantes, nos semáforos, não usam tresoitão nem outros revólveres. Eles assaltam com tanques de guerra e lançadores de granadas. De fato, não há mesmo armas que saem das casas dos “cidadãos comuns” (não são assim tão comuns, não é mesmo?) e vão para a criminalidade. Quando se ouve que alguém levou tiro num roubo de veículo, por exemplo, nunca era de revólver, né? Era sempre a explosão de uma mina terrestre ou rajadas de artilharia antiaérea.
 
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Descobri que todos os pais que têm armas de fogo costumam deixá-las carregadas e engatilhadas em cima do sofá da sala. Por isso que 94 milhões de crianças brasileiras morrem brincando com armas de fogo todos os anos.
 
Não, não. Eles escondem muito bem escondidinho. Tanto que desde a empregada até o filho caçula da prima da vizinha sabem muito bem onde fica. É como aquela chave que as pessoas guardam debaixo do vaso ou do tapete da porta; está “escondido”, mas até o carteiro sabe onde fica.
 
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Descobri que todos os assaltantes de casa têm superpoderes. Eles atravessam portas e paredes e se materializam imediatamente na sua frente e apontam uma arma para a sua cabeça enquanto você ainda está deitado, tornando impossível qualquer reação. Eles não perdem tempo e não fazem barulho arrombando portas.
 
Não, nada disso. Eles fazem o maior barulho, para dar tempo da pessoa armada reagir, afinal, eles estão ali para uma luta justa. Os assaltantes não são pessoas que pretendem roubar, mas sim bravos guerreiros que buscam duelos equilibrados. Eles jamais atacam em grupo, mas apenas individualmente. De certo, é bem possível contê-los dando tiros para o alto com a garrucha. E eles jamais revidarão, né?
 
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Descobri que se eu vir ou ouvir algum bandido pulando a cerca e entrando no meu quintal, eu não vou conseguir afugentá-lo com um tiro para cima ou para o chão. Se ele ouvir o tiro, aí sim, é que ele vai ficar excitado e vai querer de toda forma entrar em casa e trocar tiros comigo. Eles adoram fazer isso.
 
Não, eles não vão trocar tiros com o “bravo defensor do lar”. Afinal, eles trocam tiro com a polícia, que tem armas pesadas, mas com um pai bravo com seu tresoitão, ah, com esse eles não se metem. E nem deixarão para voltar em outra hora, quando só estiver em casa a mulher e os filhos. Nada disso, bandidos não são vingativos. “Acerto de contas” é coisa do “cidadão de bem”, não da “bandidagem”. Ah, e atirar para o chão, dentro de casa, é o tipo de atitude compatível com a inteligência de quem defende esse argumento. Atirar para o alto, então, nem se fale. Principalmente se for num sobrado.
 
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Descobri que os 570 milhões de reais investidos para realizar o referendo foram muito bem empregados. Afinal, porque que a gente vai gastar com segurança, quando se pode gastar num referendo? E dizendo SIM eles, nossos governantes, vão ver o quanto a gente adorou ter esse privilégio de exercer nosso direito como cidadão de decidir os rumos do nosso Brasil!
 
É mesmo, a democracia é um desperdício de dinheiro. Melhor seria morar na China, não é mesmo? Lá não se gasta com referendo; aliás, nem com eleições. Tudo já está decidido. Ah, tem um detalhe: o Estatuto do Desarmamento TORNOU OBRIGATÓRIA a realização do referendo. Não é uma decisão do Governo ou de um Partido, mas sim uma DETERMINAÇÃO da Lei. Caso não fosse feito o Referendo, aí se trataria de um Governo despótico e autoritário. Isso sim que é legal? É chato ter que decidir? Então vote nulo.
 
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Descobri que se o NAO ganhar, as armas de fogo vão imediatamente ficar 90% mais baratas e vai acabar a burocracia para a compra de uma. No dia seguinte à vitória do NÃO, qualquer pessoa (bandido ou não) vai poder ir numa loja de armas, comprar um 44 e oito caixas de munição, já vai sair armado e vai para o bar mais próximo para arrumar briga e me matar.
 
Não, não. Vai continuar comprando o tresoitão que não serve para se defender de bandido algum, mas que é fatal na hora de matar alguém da família por acidente.
 
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Descobri que delegados e policiais civis militares e federais - que são em quase totalidade favoráveis ao NAO - não entendem N-A-D-A de violência e criminalidade. Quem manja mesmo do assunto são atores, sociólogos e dirigentes de ONGs internacionais.
 
Quase totalidade? A Polícia Militar recomenda que se reaja a assaltos? Algum delegado sugere que o cidadão troque tiros com bandidos? Cadê essa estatística? Ops… Acho que ela não existe, né?
 
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Descobri que estrangeiros que lideram ONGs como a Viva-Rio têm muita experiência no assunto. Afinal, todo mundo sabe que a situação social, econômica e de criminalidade da França, Inglaterra e Estados Unidos (que é de onde eles vêm) é IGUALZINHA à realidade do Brasil. Não tenho a menor dúvida de que as teorias que eles têm vão funcionar direitinho aqui.
 
Caso esses alegados (mas convenientemente não mencionados) estrangeiros REALMENTE defendessem uma igualdade de situações, eles seriam favoráveis às armas, pois nos EUA é permitido o porte. Quem gosta de comparar as situações são os próprios defensores do voto no “Não”, como a revista Veja, que chegou ao ponto de comparar estatísticas de homicídios da Jamaica com as da Suíça. De fato, são países com condições sociais quase idênticas. A diferença é que numa se dança reggae, na outra há o relógio cuco.
 
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Descobri que o governo quer que a gente vote sim. E o governo sempre pensa no nosso bem. Afinal, todo mundo sabe que a qualidade da saúde pública, ensino público, segurança pública, e etc vem melhorando cada vez mais, dia a dia.
 
A tal frente do “sim” é formada por políticos do Governo, e também do PSDB, PFL e outros da oposição. Claro que quando o “não” joga a coisa como “governo x povo”, presta um grande serviço para a qualidade do debate. Mas pra quem defende dar “tiros para o chão” dentro de casa, isso é café pequeno.
 
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Descobri que todos os cidadãos de bem assim que acabarem suas munições vão manter suas armas eternamente sem munição, até se deteriorarem, ninguém vai buscar bala no mercado negro (até porque a violência vai diminuir um bocado), e assim não corre o risco do mercado negro se fortalecer.
 
Se for “cidadão de bem”, isso é bem provável. Certa vez, houve uma Lei que proibiu o comércio de escravos. Era um “direito do cidadão de bem”, mas que foi cruelmente solapado pela inescrupulosa Princesa Isabel. Os cidadãos de bem pararam com isso. Os de bem, apenas. Os outros de fato demoraram um pouco, e continuaram abastecendo o mercado paralelo.
 
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Descobri que se o SIM ganhar, não vão mais acontecer mortes banais. Maridos ciumentos só vão agredir as mulheres com travesseiros, torcidas organizadas vão se dar as mãos, facas e canivetes vão perder o fio, tijolos e paus vão ficar macios e os pitboys vão todos se converter ao budismo.
 
Não, não. A idéia do “sim” não é imediatamente modificar a cabeça das pessoas, mas sim dar um primeiro passo. Todos esses exemplos citados de forma jocosa servem para reforçar a idéia de que há muitos crimes decorrentes do uso de armas de fogo, e nenhum desses mostram “cidadãos de bem” defendendo a integridade do lar. Esse argumento fala em favor da proibição do comércio, e não o contrário.
 
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Descobri que essa história dos crimes por armas de fogo ter aumentado 500% na Inglaterra nos 6 anos após o desarmamento por lá foi uma coisa super normal, afinal, a população tá se expandindo, né? É normal que haja um aumento.
 
Na Inglaterra, proporcionalmente à população, há menos crimes do que nos EUA; e a proporção acompanha o número de armas de fogo por residência. Mas, ops! Quem era mesmo que reclamava quando comparavam a situação de outros países com a do Brasil? Ah, ta… Quando é para defender a própria tese, aí pode…
 
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Descobri que o jovem é a principal vítima da arma de fogo. Claro que isso não tem nada a ver com o fato de o jovem ser o maior usuário de drogas, e nem o fato de que quase 100% dos envolvidos no tráfico de drogas têm menos de 30 anos (porque morrem ou são presos antes). Isso é só coincidência.
 
Então por que a maioria dos que defendem as armas também não defendem a liberação das drogas? Não parece incoerente? No caso da droga, apenas há prejuízo por parte de quem usa; já no caso das armas de fogo, salvo nos raros casos de suicídio, quem vai pro vinagre são os outros mesmo. Ter o direito de matar os outros, mas não o de se matar, não parece um tanto bizarro?
 
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Descobri que quem mora em fazendas, isolado de todos, no meio do mato, não precisa de armas. No meio da natureza rola uma ‘vibe’ muito forte, as energias positivas das árvores e das flores protegem eles.
 
Não, não. O segredo é antes de tudo buscar informação, antes de sair por aí falando besteira. O Estatuto do Desarmamento, no parágrafo quinto do artigo 6º, permite o porte de arma de fogo para “residentes em áreas rurais, que comprovem depender do emprego de arma de fogo para prover sua subsistência alimentar familiar”. Quer mais o quê?
 
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Descobri que no Texas - onde há quase uma arma por habitante - reduziu para quase a metade o índice de crimes violentos nos últimos dez anos. Mas isso é porque nesses dez anos, o pessoal parou de comer carne vermelha e começou a ouvir mais Bob Marley.
 
Uepa! De novo a comparação entre países de primeiro mundo? Mas que negócio é esse? Isso já beira o bizarro! Faz uma crítica, mas comete o mesmo erro DUAS VEZES?
 
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Descobri que todo mundo que tem arma de fogo é um suicida em potencial. E a única causa do suicídio é a arma de fogo, e não a falta de perspectivas, falta de um ideal, falta de um sonho a buscar ou então distúrbios mentais como a depressão.
 
Não, não. Suicídio não é o problema. Quem quer se matar, faz de qualquer jeito. O duro é quando o “suicida em potencial” ainda não é um “suicida em potencial”, e mata por acidente alguém da família, ou resolve reagir a um assalto e descobre que os bandidos não invadem as casas individualmente, mas em grupo, e um dos meliantes reage atingindo também alguém da família do “ainda-quase-suicida”.
 
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Descobri que se algum bandido invadir a minha casa, basta eu ligar para o 190. A polícia sempre tem homens e viaturas sobrando e levará menos de 3 minutos para me atender.
 
Não, não! Então reaja, valentão! Vai lá! Fica você sozinho com um revólver, e quatro ou cinco bandidos, cada um também com uma. Você tem sangue frio e sempre atira, né? O bandido não, ele nunca atira, nunca usa a arma. Não é preciso ser mestre em matemática para saber qual das duas partes tem mais chances.
 
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Caso isso não aconteça, basta eu fazer o sinalzinho do “sou da paz” com as mãos e o ladrão vai saber que eu sou um sujeito legal, e então ele vai embora em paz sem levar nada e sem violência nenhuma. Eles sempre agem assim quando descobrem que você é da paz, e não um daqueles psicopatas malvados que são a favor do NÃO.
 
Em qual dos casos, num assalto, há mais chances da família sair viva: com ou sem reação? É triste, muito, muito mesmo, mas a melhor forma da vítima de um assalto sair viva, é exatamente não reagindo. Parece covardia, talvez até seja visto assim por muita gente; mas até que ponto é inteligente e másculo querer defender a família, mas gerar um tiroteio dentro de casa, que se não houvesse reação não aconteceria?
 
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Caso o ladrão seja muito, mas muito malvadão, eu só preciso gritar por socorro. Em cinco segundos vão aparecer a Fernanda Montenegro, a Maitê Proença e o Felipe Dylon para me salvar e prender o bandido. Sem usar armas. Êêêêêêêêêêê!!!
 
Não, nada disso. Mas nada de dizer “o ladrão”, pois o único sozinho nessa história é você. Eles vêm de dupla, trio, quarteto etc. Você, sozinho, com seu revólver. Depois que começar o tiroteio, mas nem todo o elenco de todas as emissoras seria consolo no velório do resto da família.
 
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Se o SIM ganhar, o Brasil vai ser um país mais feliz. Que nem na novela! Obaaaaaaa!
 
Não, não. A idéia do “Sim” não é transformar o País, ou mesmo o Planeta. A idéia é apenas proibir o comércio de armas e de munição. Para todos os efeitos, é bom lembrar que o “não” tão-somente mantém a situação como está. E por acaso a situação está boa?

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