Confissões de um menor de rua

Eu não gosto de esperar,

pois dá medo.

 

Nessas ruas falta vida,

sentimento.

 

Eu não quero mais parar,

dá receio.

 

Eu não tenho nada mais

que um tormento.

 

Eu não posso ver o mundo,

pois não sinto.

 

Se eu digo: ´Tô feliz,

eu só minto.

 

Não entra comigo na rua,

é “mancada”.

 

Já me viram cá contigo,

na “quebrada”.

 

Fica aqui, moço, comigo,

fica agora.

 

Pois eles vem me pegar,

sem demora.

 

Eu não gosto de esperar,

nada tenho.

 

O meu mundo é uma droga,

falta empenho.

 

Eu não tenho muito, moço,

nessa estrada.

 

Para mim, eu sou só hoje

quase nada.

 

Eu só quero uma coisa,

seu “dotô”;

 

Morrer muito ligeirinho,

sem a dor.

 

Dor de morrer com bala

na cabeça.

 

De viver tendo só

uma sentença.

 

Me dá um trocado, moço,

por favor.

 

P´ra eu não morrer de fome,

meu senhor.

 

P´ra eu não morrer de sede,

sem valor.

 

P´ra eu não morrer de frio,

sem calor.

 

P´ra eu não morrer na guerra,

sem amor.

 

 

 

 

Moço, dá um trocado pr´eu comer ...

 

 


 

(escrito sob o pseudônimo de J. R. Babbash, em 27/09/1996)

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