Republicado como uma homenagem sincera

O dia em que eu chorei

(Homenagem a um grande amigo meu, que se foi)

 

                Conheci Rovângelo há muito tempo atrás. Cinco, seis, sete anos ... não importa. O que importa era o tipo de pessoa que ele era: moreno, não muito alto nem muito baixo, de porte mediano, óculos - enfim, nada que lembrasse o tipo atlético, alto, forte e bonitão que povoa as revistas femininas, como exaltação do chamado “homem ideal” (muito músculo e pouco cérebro). Aliás, dir-se-ia até que ele não era grande coisa assim, já que sua voz, meio esquisita, surda e estridente, anunciava um tipo de pessoa que não se vê muito nos dias de hoje: bonachão, carinhoso, sensível, às vezes até emotivo, mas com um certo traço de “charm”, que as pessoas hoje parecem esquecer, nesses tempos corridos em que a dureza dos atos substitui a beleza da vida - não sem tristeza, nem mesmo sem dor.

 

                Mas, como eu ia dizendo, conheci-o no colégio, por assim dizer no ginásio, que é, por definição, a época em que os espíritos se abrem, desabrochando em todos a personalidade que talvez terão em vida - ou, pelo menos, em sua juventude. Era uma época que via surgir gente bonita, sedosa e cheirosa, alguns mais “zoeiros”, outros nem tanto, e outros que nem sabem o que significa isso: os chamados “bitolados”, ou “bitolas”, para os quais o melhor companheiro é o livro, e a obrigação número um é passar de ano - e era nesses que eu me classificava, à base de TV de manhã, ônibus lotado à tarde e o carro do pai que vinha me buscar de noite, tudo ao mesmo tempo, sem contestação.

 

                Nesses tempos, onde o que importava p´ra mim era ser um bom aluno, surgiam outros, raros como eu, que faziam valer os centavos que os pais investiam, ainda que custasse menos ser irresponsável e idiota - como tantas donas de butique de hoje já foram um dia. No entanto, isso não importa mais, já que o velho e bom amigo Rovângelo, aquele cara que falava fino, aquele que parecia 'delicado', aquele mesmo que um dia jurara namorar a professora de Educação Artística - nossa 'professora Helena' dos tempos de ginásio - aquele cara com um jeito todo especial de ser, e de cativar, que só ele tem ... tinha, pois morreu há poucos dias atrás, vítima do imponderável e do impensável que circula, todo dia, entre nós.

 

                Como estaria ele hoje ? Voz diferente ? Estaria mais alto ? Mais gordo, talvez ? Não sei, não posso explicar, pois não cheguei a vê-lo de novo. A única coisa que sei - e que pude lembrar, quando soube da notícia - foi da última vez que nos vimos, na nossa formatura, quando o abracei e tiramos uma foto lá dentro do colégio. Foi a última foto que tirei com qualquer pessoa que conheci no ginásio, e foi por isso que, quando lembrei-me do fato, ao voltar para casa, tendo a consciência de que uma parte de mim havia também ido, uma boa parte, dos bons tempos em que podia viver e sonhar, tornando se homem nas esquinas da vida, e do quanto ela havia sido boa , e do amigo que eu tinha perdido ali ...

 

                ... foi aí que, sem nada p´ra dizer, simplesmente chorei.

               

Fábio Peres da Silva, 31 de maio de 1996.

P. S.: Os dados são reais, o amigo é real - e, sim, chorei muito, quase como criança, naquele dia triste.

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