28.10.05

Histórias da minha infância - texto escrito em 25/11/2000

Os "gigantes do ringue" e os pensamentos de um menino
 
Quando criança - e ainda depois de velho, porque aquela estória de "garoto crescido" ainda existe - confesso que gostava de muita porcaria: também, uma criança que cresce em cidade grande quase sempre vai acabar passando boa parte de seus dias na frente da TV, que todo mundo quer controlar mas quase ninguém consegue. Curiosamente, a discussão sobre a qualidade do que se exibe vem desde o segundo dia de programação televisiva, quando foram procurar no teatro de revista quem colocar na "telinha" - mas como eu não sou advogado ou psicólogo, essa discussão é daquelas que não me interessam como importante.
 
Uma coisa as crianças tinham em comum nesse ponto: os desenhos animados eram, assim como são hoje, a maior diversão que as crianças gostavam (ninguém me tira da cabeça que boa parte do sucesso de Xuxa se deve ao único período em que a Globo realmente exibiu boas séries, como os ainda hoje exibidos She-Ra, He-man e Rambo, e quem fala de Pokemon hoje deveria se lembrar que ainda existe Picapau...). No entanto, tem coisas que marcam para sempre, e é de uma delas que eu vou lhes contar: as lutas de "telecatch", os astros ou "Gigantes do Ringue", como se dizia na minha época.
 
Para quem não se interessaria, o "telecatch" é uma versão de luta-livre ou vale-tudo, tipo Ultimate Fighting ou semelhantes - com a diferença que o vale-tudo oficial, de Gracie e Cia., se leva a sério demais para ser considerado lembrança de um menino. Os lutadores, quase sempre divididos entre bons e maus, simulavam combates em que a plástica dos movimentos valia bem mais do que a competição - aliás, se existia competição em alguma coisa do que eu via ali, era só um pretexto para o objetivo real: torcer, torcer descaradamente pelos mocinhos na sua luta contra os bandidos e dar a todos a esperança de que, pelo menos em algum lugar, o bem venceria (só para se ter uma idéia, eu e meu irmão simulávamos essas lutas em casa, depois de tirar toda a mobília do lugar e tomando cuidado para não machucar ninguém - e eu, que era o mais velho, sempre tinha que encarar o malvado, e sempre perdia, como convinha a quem era irmão mais velho como eu ...).
 
Mas o tempo passou - passou, eu cresci, meu irmão também cresceu, e a brincadeira perdeu a graça (também, se hoje a gente fizesse esse tipo de joguinho não ia ter mais bibelô em casa, já que ambos juntos pesam mais de 150 kilos de músculos, o que faz diferença). Só depois, já crescido, é que tive contato com o original americano, que é bem mais organizado e com lutas corporais mais bem definidas, e pude relembrar os meus tempos de menino crescido, que na frente de uma TV e na rua de sua casa fez o seu mundo, e que ganhou muito mais do que perdeu com as estórias que lá se contaram, e com tudo que se passou.
 
E isso, na verdade, porque a gente até sabia que as lutas eram de mentirinha mesmo, que ninguém é tão ingênuo a ponto de dizer que não - mas a verdade é que, mesmo assim, não custava sonhar, porque a verdade é o que você acredita, não o que os olhos vêem, não é mesmo?
 

 
P. S.: Para os que desejam saber mais sobre como está o telecatch nos dias atuais, visitem o site dos maiores especialistas nessa marme..., eh, nobre arte que é o wrestling entertainment: http://www.wwe.com.

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