Como o bonde voltou a Barcelona



A lamentação se sucede, volta e meia, nos círculos pseudo-saudosistas paulistanos: 'se não tivéssemos retirado o bonde de São Paulo tudo seria diferente'. O saudosismo, um tanto quanto duvidoso (já que a grande cidade naquela época era pouco maior que a Fartura dos meus pais e quatro vezes menor que a Divinópolis de minha esposa), reflete uma vontade incontida desse tipo de cidadão paulistano em achar que o passado sempre foi melhor do que os dias de hoje, e de sonhar com um futuro em que possamos ter uma cidade mais planejada, mais ordeira e, indiretamente, mais humana.

Descontado o fato de que as grandes cidades do mundo quase nunca tem um crescimento ordenado, e que o progresso é efetuado não só pelas demandas de Estado mas pelos cidadãos e seus preconceitos (como andar de carro para ir à esquina buscar pão), é verdade que o passado nos fascina e nos surpreende; mas uma pequena repassada em livros como 'Brás, Bexiga e Barra Funda' mostra que o passado também tinha seus defeitos, e deslizes, e que, de uma certa maneira, o futuro já se desenhava por trás de caminhos tortuosos, indústrias, crescimento e burburinho.

Mas nem tudo é largado no passado: e foi com esse espanto que eu li como o bonde voltou a Barcelona.
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E, não, isso não é um texto fictício - Barcelona, a grande cidade espanhola, teve bondes (tramvias) durante boa parte de sua história, mas durante a década de 70 fechou todas as linhas de transporte por trilhos nas ruas à exceção do Tramvia Blau, uma linha turística. O objetivo do prefeito da época, indicado pelo ditador Francisco Franco (que Deus o tenha no inferno), era o mesmo que levou ao fim dos bondes em São Paulo: liberar espaço para os carros e projetar novos planos para o transporte público - ou seja, 'implantação do metrô'.

Entretanto, o plano não deu certo, e em 1984 Barcelona possuia somente duas linhas de metrô; de tal forma que, em 1987, iniciaram-se os primeiros projetos para o retorno ao bonde naquela cidade - e, em 1997, chegava à capital catalã o primeiro 'tramvia' moderno, que reimplantou os bondes na cidade com relativo sucesso (embora, agora, como Veículos Leves sobre Trilhos, os VLT´s), devidamente integrados aos trens e às linhas de metrô que fizeram.


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Vendo as fotos do site de uma associação de usuários de transporte coletivo da Catalunha, me pergunto como é que ninguém pensou nessa solução ainda. Vale lembrar que o corredor de ônibus da Av. Santo Amaro nada mais é que o espaço onde funcionava a maior linha de bonde da cidade, e que as linhas de trólebus são herdeiras diretas do final dos bondes na cidade, que foi uma decisão correta no ambiente dos anos 60 mas que não resistiu ao tempo e à pressão.

Infelizmente, parece-me que vamos gastar muito tempo e dinheiro com linhas de metrô e tentando aumentar o ônibus antes de dar um transporte decente e de qualidade - mas, para você ver imagens e documentos a respeito de como uma cidade pode dar a volta por cima em termos de transporte, visite o site que fala do bonde em Barcelona: www.tramvia.org.
(e, se desejar, visite também o site do Museu dos Transportes, da SP-Trans, para ver as boas imagens do paassado: http://www.sptrans.com.br/new05/conteudos/historia/museu.htm).

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