O cidadão comum brasileiro

Idelber Avelar, no blog ''O Biscoito Fino e a Massa'', fez um perfil muito interessante do direitista brasileiro, essa espécie que ama ler Diogo Mainardi na Veja e adoraria ver o Brasil adotando a receita liberal ao extremo (está em http://www.idelberavelar.com/archives/2005/12/perfil_do_direi.php). Para variar, nessas discussões bloguísticas, ele recebeu uma réplica com um perfil dos fulanos que acham que ''a luta sempre continua'', os esquerdistas de plantão - que está no site capitolio.org, em http://www.capitolio.org/content/view/233/2/ (se bem que esse último é cópia do primeiro, e mal feita, por sinal).
 
Tudo isso é muito justo, cada um com sua opinião, e esquerdistas e direitistas tem todo o direito de desprezarem um ao outro - mas faltou o perfil fundamental, o do ''cidadão comum'', que é na verdade quem faz a balança pender para um dos lados e determina quem vence eleições nessa Terra onde se plantam muitas idéias, mas não se colhe tanta coisa assim. Segue, então, o ''Top 10 do Homer'', a definição do Olho Clínico para o cidadão cultural brasileiro (com a ajuda de Willam Bonner, é claro):
 
1.    O cidadão comum vive no Brasil, e não em Cuba, China ou EUA - ele sabe que Bush é um idiota e Fidel, um tirano, mas de chinês só conhece mesmo o cara que vende muamba na Galeria Pajé; isso se ele não lembrar da última visita à Disney ou de que o Zé Dirceu deu uma passada em Cuba nos tempos da ditadura; ou melhor, esqueça o Zé Dirceu, o cidadão comum nem se lembra mais que ele existe desde que ele foi cassado e sumiu da televisão.
 
2.    O cidadão comum não sofre de profunda nostalgia: também, com tanta conta para pagar e problemas a resolver, ele nem consegue pensar em ler Diogo Mainardi e Frei Betto, quanto mais o Paulo Francis que ele só lembra porque era ''um esquisito que falava com uma batata na boca''; e, para não dizer que não sente saudades, sim, ele sente - o cidadão comum lembra muito bem da infância, dos tempos em que brincava de roda, esconde-esconde, cabra-cega e futebol de rua.
 
3.    O cidadão comum não sabe o que é ''ser blasé'' - mas ele fica raivoso, sim, quando o vizinho toca música alta ou quando vê o estouro da conta do cheque especial.
 
4.    O cidadão comum não frequenta clubes, e não sabe quem é o Bolinha porque lia Mônica e Cebolinha - e a mulher do cidadão comum não gosta de política (o que talvez explique porque não existem namoros em clubes de esquerdistas e direitistas por aí).
 
5.    O cidadão comum costuma lamber as botas do seu patrão, porque é ele que lhe paga o salário; mas em geral não lambe botas de ninguém (principalmente se cheiram mal ou estão sujas de barro).
 
6.    Por alguma razão estranha o cidadão comum só gosta de assistir a filmes dublados que passam na Globo, talvez porque não saiba inglês ou não tenha paciência de ler as legendas; por alguma razão estranha o cidadão comum não sabe usar um computador direito, e não tem paciência nem mesmo de ler um manual - e, por alguma estranha razão, ele se identifica muito com Zezé de Camargo e Luciano e os ''2 Filhos de Francisco''.
 
7.    O cidadão comum brasileiro (ele não conhece bem o termo ''brazuca'') não sabe o que é ser liberal direito - ele não gosta que a filha durma fora de casa, e quer o filho de volta ''antes das 11'' mesmo que a balada só esteja começando; e, que interessante, não gosta dos empresários sanguessuas nem dos baderneiros do MST.
 
8.    O cidadão comum brasileiro não conhece direito a palavra ''etnia'', nem a palavra ''gênero''; e não sabe o que é doutrina, a não ser que seja evangélico praticante.
 
9.    O cidadão comum ouve pagode, É o Tchan, Leonardo, Daniel e Calypso.
 
10.    E, por último: ao contrário do esquerdista pesquisador e do direitista herdeiro de fortuna, o cidadão comum trabalha, e muito - e prefere mil vezes pensar em como vai resolver os problemas do dia seguinte do que ficar ''perdendo tempo'' com discussões sem sentido sobre esquerda e direita em geral.
 
Esse é o cidadão comum brasileiro, aquele que pende para um dos lados e decide eleições nesse país; é para ele que William Bonner faz o Jornal Nacional toda noite, e sua mulher é quem vai assistir as novelas da Globo e garantir a audiência secreta de todo dia-a-dia; é ele quem lota Universais para resolver seus problemas e vai a Aparecida pagar suas promessas de vez em quando; é ele quem levanta e dorme, e com seu suor ajuda a construir um país melhor, para seus filhos e para ele, todos os dias.
 
Você, que lê este blog, pode não gostar muito dele - mas não pode negar o seguinte: ele existe.
 

Comentários

  1. muito bom Fábio! cara, sou teu fã!

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  2. obrigado, meu caro, muito obrigado mesmo !!!

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