Um conto diferente de Natal

O braço direito

Não sei até agora porque é que eu me envolvi nessa história - aliás, até hoje não entendo direito o que aconteceu quando recebi em minha casa, naquele dia 17 de dezembro, uma proposta para entrevista de emprego muito especial mas que era ... como direi ... coisa de maluco, louco, insano até.
 
Dizia a carta, em letras manuscritas que pareciam ser de uma caneta tinteiro, e num papel que tinha um logo estranho, parecido com um pinheiro de natal estilizado com uma estrela cadente sobre o dito cujo:
 
"Sei que está desempregado, mas tenho um trabalho bom para você. Venha, no dia 19, às 23h, ao Campo de Marte vestido de camisa pólo vermelha e calça preta, para facilitar a sua identificação; traga malas e roupas de frio, pois vai precisar; finalmente, acredite em tudo que você verá a partir deste momento, mas, principalmente, nos sonhos da criança que você foi um dia.".
 
E, ao final, a assinatura, singela e extremamente simpática: "N. de Mira".
 
Parecia uma piada, mas algo me dizia que deveria acreditar naquela carta e no seu remetente; além disso, o cheque especial estava qual queijo suíço derretido, e, com dois filhos pequenos para criar, realmente eu deveria acreditar em qualquer oportunidade que passasse pela frente.
 
E foi assim que eu, às 23 horas do dia 19 de dezembro, estava lá, esperando pelo que seria o mais impressionante teste de emprego que qualquer homem jamais passou.
 
...
 
Não conseguia ver naquele senhor que me esperava no aeroporto a imagem do que seria a empresa que me contrataria: era gordo, mas não chegava a ser balofo; extremamente alto; pele morena, rosto escanhoado; e vestido praticamente da mesma forma que eu, a não ser pela jaqueta marrom forrada de algo que me pareceu à primeira vista ser pele de carneiro.
 
- Signore, signore, sabia que você viria!
 
E, depois do forte e cordial abraço que quase me quebrou uma costela, percebi pelo sotaque que era italiano de nascença:
 
- Mas vamos - vamos logo, que temos muito trabalho a fazer.
 
Minha esposa achou muito estranho que nos encontrássemos justamente no Campo de Marte, e tive até minhas confirmações quando vi que o nosso ''meio de transporte'' era um estranho veículo que não conseguia distinguir com precisão no escuro em que estava: uma espécie de carro sem rodas, parecendo-se muito com um trem mas que não era bem aquilo.
 
Tinha a impressão que meu contratador gostava de esportes radicais, que me foi reforçada quando recebi do ''signore'' uma jaqueta igual a dele com a recomendação expressa de que a usasse - mas comecei a achar realmente estranho quando vi que o veículo não estava indo bem para a frente e para os lados, e sim ... para cima.
 
Soube nesse momento que estava viajando - mas não tinha a mínima idéia de para onde ia; e, afinal de contas, que tipo de helicóptero era aquele?
 
...
 
Acordei de uma forma meio esquisita: deitado, estava no que me pareceu ser um ambulatório, apesar de ver uma série de camas minúsculas e instrumentos diversos em tamanho reduzido. Dava a impressão de que estava num lugar realmente muito diferente, principalmente depois que vi a enfermeira entrar dentro da sala e me perguntar se estava tudo bem e normal e etecetera e tal.
 
- Não, estou bem, fora eu estar nesta sala onde tudo é pequeno, até a senhora ...
 
E era verdade: a enfermeira era praticamente uma anã, não tinha mais do que 70 centímetros de altura, se muito. Mas seu bom humor era muito marcante - tanto é que uma gargalhada se ouviu antes de ela me responder, de forma bem educada:
 
- O senhor vai ver muitas pessoas assim por aqui, não se espante muito com isso. Mas não é por isso que estou aqui: o Sr. N quer vê-lo em sua sala, e pediu para levá-lo até lá com urgência.
 
Lembrei-me do tal ''N. de Mira'' que assinou a carta e recobrei o resto dos sentidos: era a hora da entrevista.
 
Arrumei o que precisava arrumar, peguei o curriculum na pasta de trabalho que sempre me acompanha e segui para a sala onde meu futuro me aguardava, não sem antes notar as linhas de montagem e embalagens multicoloridas que eu via no caminho para a sala da diretoria ...
 
...
 
Tive a grata surpresa de ver o mesmo senhor que me recebeu no aeroporto dentro da sala, ricamente adornada e acarpetada com o que me pareceu ser um conjunto de peles de animais dos mais diferentes tipos - e, considerando-se que ele estava atrás da mesa ao fundo, não me surpreendeu que ele fosse o Sr. N informado pela secretária (mais um furo, que coisa !!!).
 
- Bemvindo, ''signore'', como está? 'Va bene''?
 
- Vou bem, obrigado - mas gostaria de lhe fazer algumas perguntas, se me permite ...
 
- Estou às ordens.
 
- Em primeiro lugar, o senhor parece ter uma cota para pessoas de baixa estatura nesta empresa; por todo lugar que eu vá encontro sempre pessoas, vestidas de verde, indo para o lado e o outro correndo atrás das linhas de montagem ...
 
- Muito observador o senhor, continue.
 
- ... e me parece que esta é uma fábrica de brinquedos, se não me engano; mas com uma produção que está extremamente atarefada, não sei se o senhor leu meu curriculum antes mas é que eu já trabalhei em produção e vi que estão correndo muito para atender os pedidos e ...
 
- Sim, sim.
 
- ... além disso, que estranho veículo é aquele que me trouxe até aqui? E porque tive que me encontrar com o senhor no Campo de Marte, e porque a carta escrita à mão, e porque ...
 
Tinha vontade de perguntar tudo o que viera a mente - afinal de contas a situação era estranha, mas fui interrompido bruscamente pela voz branda do ''signore'' à minha frente:
 
- Não é no mínimo estranho que o ''signore'' é que esteja fazendo as perguntas ao seu patrão?
 
''Glup, que cortada!!!'' - foi a primeira coisa que me veio à cabeça; e a segunda, lógico, foi a de que perderia o emprego antes mesmo de entender o que ele era. Mas, felizmente, o Sr. N me tranquilizou:
 
- ''Va bene'', desculpe-me por não ter dito muitas coisas a respeito de mim e do que eu faço - é que precisava ver se o ''signore'' iria atrás de uma oportunidade como a que vou lhe oferecer agora. Mas, assim que me apresentar, tudo estará esclarecido, porque os bons meninos sempre sabem no que devem acreditar, e o ''signore'' é um deles, e me provou isso.
 
E, estendendo-me a mão, apresentou-se:
 
- ''Piacere'', Nicolau de Mira.
 
...
 
Nicolau, Nicolau de Mira, São Nicolau de Mira ... só podia ser ele; mas eu precisava de uma prova.
 
- Posso ir até a janela, por favor?
 
E, de fato, o que eu vi me surpreendeu: neve, neve branquinha como nunca tinha visto antes; pinheiros aqui e ali, num ambiente acolhedor e extremamente ... frio.
 
Desloco meu olhar para dentro da sala, e vejo que a quantidade de brinquedos artesanais me lembra muito aqueles de minha infância; e, ao lado, vejo por uma tela de vidro o movimento de uma fábrica frenética, povoada de homens verdes pequeninos preparando bonecas, e ursinhos, e jogos, enchendo bolas ... e preparando tantos tipos de brinquedos quanto os imaginados pelo ser humano.
 
E foi aí que, num ímpeto impressionante, eu mesmo respondi ao que queria perguntar, como em um estalo:
 
- O senhor ... o senhor é Nicolau de Mira, São Nicolau pela Igreja Católica, que jogava sacos de dinheiro aos pobres na Idade Média jogando-as por cima das chaminés; distribui presentes todos os anos para as crianças boazinhas no mundo todo e vive no Pólo Norte, onde tem sua fábrica de brinquedos; e é chamado por vários nomes pelo mundo ...
 
- Oh, você realmente é esperto !!!
 
- Agora deu para entender um pouco das coisas que aconteceram: a enfermaria é cheia de coisas pequeninas porque são quase sempre duendes que vão para lá, o veículo estranho era um trenó e eu estava no Campo de Marte porque é de lá que saem os helicópteros de São Paulo; provavelmente eu desmaiei no início da viagem, porque a força gravitacional do trenó é algo de espantoso ...
 
- Sim, sim, é verdade.
 
- ... e a fábrica está correndo assim porque estamos perto do Natal, faz todo o sentido do mundo, até o sotaque, a não ser por uma coisa que eu gostaria que o senhor me respondesse, ''Sr. N'', se bem que essa pergunta é absolutamente esquisita ...
 
- Quais delas, ''signore''?
 
- Lá vai, então: o que eu estou fazendo aqui, Papai Noel?
 
...
 
Noel nada disse de imediato - apenas me estendeu alguns documentos, os quais li com atenção.
 
O primeiro era uma cópia do meu curriculum, que impressionou porque não sabia como ela viera parar ali - o que era lógico, afinal nenhum adulto manda carta para o Papai Noel, muito menos um curriculum vitae. Mas, junto a esta cópia, estava uma cartinha, escrita em uma letra que reconheci de imediato ser a do meu filho de sete anos e cujo texto quase me levou às lágrimas, tamanha a beleza do que ele pedia naquele momento.
 
Dizia a tal carta:
 
"Papai Noel, eu não peço nada para mim, porque sei que o senhor está muito ocupado e para mim nada está faltando - mas o meu pai está sem emprego e não dorme faz muito tempo; minha mãe está triste e fica chorando, e eu fico triste e choro também.
 
Sei que meu pai leva essa cartinha com ele sempre que vai buscar emprego, por isso estou mandando ela pra ver se o senhor ajuda ele - ele é o melhor pai do mundo e eu sei que o senhor vai ajudá-lo a conseguir isso.
 
Por favor, Papai Noel, arranja um emprego pro meu pai."
 
Controlando as lágrimas, entreguei o curriculum para o bom velhinho - que começou a lê-lo, pausadamente:
 
- Aqui ''diche'' que o ''signore'' é engenheiro de ''produzione'' e logística ... trabalhou por doze anos em fábrica de tutto quanto é produto, e também foi controladore de vôo e é piloto nas horas vagas, estou certo?
 
- Sim, é verdade; quando prestei o serviço militar - cheguei a ver uns corpos estranhos nos radares no Natal ...
 
Pausa para mais um estalo: ''realmente, devia ser o trenó do Noel - e eu que pensava que estava maluco, que piada'' ... e, enquanto pensava, Sr. N agia:
 
- Vou ser direto, ''signore'', que estamos perdendo tempo aqui: o ''signore'' conhece do céu muito bem, até pegou o meu trenó no radar do Bresile; e ''io'' estou precisando justamente de um supervisor de logística para as minhas entregas de Natal, até referência o ''signore'' tem porque a carta de um bom menino como seu filho é a melhor coisa que Papai Noel precisa ...
 
E Noel olha bem na minha cara, e dispara:
 
- O ''signore'' não quer fazer um teste este ''anni''? Ser o supervisor das minhas entregas de Natal?
 
Era muito arriscado, insano, absolutamente maluco - mas eu era mais louco que tudo aquilo, porque eu topei o serviço.
 
...
 
Já faz três anos que tudo aquilo aconteceu; no primeiro ano tudo é mais difícil - as pessoas, os comportamentos, mas depois passou a fazer muito sentido que Papai Noel precisasse de um supervisor para a distribuição de brinquedos no Natal.
 
Para começar, há pelo menos dezessete trenós distribuindo as entregas de Natal da fábrica do bom velhinho: e, antes que eu desiluda as crianças, é Noel que faz a maior parte do trabalho (uns 80%), sendo que as crianças que não forem atendidas por ele este ano com certeza estarão na rota do ano seguinte. E é aí que eu entro, controlando todas as rotas e cuidando para que nenhum destes trenós deixe de chegar ao seu destino, nas 31 horas de trabalho da véspera de Natal.
 
Meu trabalho vai longe: além de 25 de dezembro, existem outras crianças que só vão receber os presentes no Ano Novo e no Dia de Reis (principalmente na Rússia) - e, em todos esses dias, o trabalho é bem pesado. Depois, tiro uma semana de descanso no Nordeste, já que ninguém é de ferro, e estou de volta para mexer com as linhas de produção e distribuição que o Sr. N gentilmente cede ao Coelho da Páscoa, de tal forma que só vou tirar férias mesmo depois de abril.
 
Na volta, começa o trabalho árduo que só vai parar em janeiro - sabe o que é fazer brinquedos para todas as crianças antes do Natal chegar? É, estamos trabalhando duro pela felicidade do pessoal (se bem que tem suas vantagens, como, por exemplo, poder usar os vários trenós no final de semana - imagine, estar no sábado em Paris, no domingo em Tóquio, semana seguinte no Brasil ... e por aí vai).
 
Minha mulher até quer trabalhar comigo, lendo as cartas de Natal - e meu filho, esse fica todo orgulhoso quando diz que o pai dele é ''o braço direito do Papai Noel'', se bem que ninguém acredita. Mas ele acreditou em Noel, assim como eu.
 
E é por isso que, quando você vir o trenó de Papai Noel rodando pelo céu, lembre-se de que alguém, aqui na Terra, está cuidando para que ele chegue ao seu destino - porque ele é que entrega os presentes, mas alguém precisa cuidar das coisas enquanto ele está lá em cima.
 
Feliz Natal à todos - e bom trabalho pra mim, ho, ho, ho ...

FPS, 23/12/2005,15:03

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