Prosa, de 96, revisitada ...

Xadrez

 

O xadrez é um jogo fascinante.

 

Rainhas, torres, bispos, peões, cavalos, todos se movem, coordenadamente, seguindo os passos da mesa, procurando caminhos secretos e escondidos, a fim de achar em si um único objetivo: encurralar o rei, colocando-o em xeque, ou aniquilá-lo, no caso do xeque-mate, destruindo por completo suas chances de escapar de tal armadilha.

 

E aqueles dois, no cair da noite, faziam exatamente isso: jogavam xadrez, até mesmo com o relógio que marcava as horas e passos e que dava o tom daquele jogo.

 

- Clic!

 

A torre move-se perigosamente em direção ao bispo adversário.

 

Torres, no entender da dialética que rege o jogo, são princesas, que, encarceradas, não tem outro remédio senão andar, para a frente ou para os lados, em busca de salvação. Bispos, por sua vez, são peças ariscas, ora pendendo de um lado, ora do outro - andando sempre em diagonal, à procura do momento certo para atacar.

 

- Clic!

 

Um peão se move à frente.

 

Peça desnecessária, o peão apenas morre por seu líder. Não sabe porque está lá, ou o que virá a fazer depois; apenas move-se, uma casa por vez, procurando apenas um caminho para vencer - e talvez escapar de sua sina de peão.

 

- Clic!

 

O cavalo se move.

 

Garboso, imponente, age na socapa, atacando de frente, para ir depois de lado. Corre pelos prados, ataca os flancos, abrindo caminhos em seu movimento, estranho, porém eficaz.

 

- Clic!

 

O jogo torna-se tenso, frenético, compulsivo.

 

- Clic!

 

Move-se a rainha, a peça mais importante do jogo, aquela que pode destruir o rei se atacá-lo às suas costas. Já foi um vizir, o amigo do rei, conselheiro talvez, mas é a mesma coisa: é a eminência parda, aquele que se mexe em todas as direções, de todas as formas, pronto para destruir, e induzir ao erro, e proteger o rei - ou matá-lo, talvez.

 

- Clic!

 

Mais tensão se sente no ar.

 

- Clic!

             

Os jogadores suam, desesperados, à procura de um movimento fatal.

 

Peças vão sendo retiradas, uma a uma, do jogo, ora um bispo morto em combate, ora uma torre destruída, ou mesmo um peão que se foi, sem saudades.

 

- Clic!

             

Movimentos anunciam que o jogo está por terminar.

 

- Clic!

 

Mas, uma dúvida: por que esse jogo seria tão importante?

 

- Clic!

 

Por que uma simples partida de xadrez ...

 

- Clic!

 

... valeria tanto ?

 

- Clic!

 

Ou melhor: por que tanto ...

 

- Clic!

 

... por tão pouco?

 

...

 

Um erro, um descuido, e um deles comete um erro primário, colocando o rei à vista. De um lado, um bispo, do outro, uma torre, e a rainha por perto, a lhe ameaçar.

 

- Xeque !

 

- Ah, não ...

 

Tira do bolso uma arma, e aponta ao outro.

 

- O que é isso, meu velho? Bebeu? O que ...

             

- Clic.

 

E a arma cuspiu.

 

E o corpo caiu.

 

...

 

Olhou em volta.

 

Um sorriso sarcástico lhe veio aos lábios. Enfim, tudo se acabara, “consumatum est”, como era dito nas aulas de latim.

 

E, chegando-se ao outro, que jazia no chão tendo ainda nas mãos o rei branco capturado pouco antes, fechou a fatura, com chave de ouro:

 

- Xeque-mate.

 

FPS, 04/06/2007, 22:50

 

 

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