Prosa

  
O popular, o populista e o não tão “popular” assim
 
            Acordei hoje cheio de vontades para escrever um texto com esse título, mas o engraçado é que me faltou coragem, tato ou mesmo inspiração para introduzir esse assunto à vocês. Me perdoem o lapso, já que não sou tão popular entre as pessoas para poder ficar sem pedir desculpas por alguns minutos, mas é que esse assunto é um tanto quanto infeliz, até pela incapacidade que temos de discernir os gostos que as pessoas tem em comum, seres humanos diferentes que somos, em nossa imensidão de opiniões e gestos malucos do cotidiano que temos, todos os dias, em nossas humildes vidas.
 
            Mas o fato que temos é o seguinte: hoje, vivemos a era do profissionalismo cultural exagerado, no qual todo mundo quer fazer “arte” e dar-se bem com isso. Embora os conceitos de arte e cultura sejam diferentes para as gerações - e certamente o são - nos vem a cabeça a pergunta, tão cheia de sentido como vazia de respostas, incansável e fútil como os dias que se seguem, que é a seguinte: “porque não se faz cultura de bom gosto como antigamente ?”. Digo isso porque, ao ler um jornal ou revista, e chegar à parte cultural, sempre vejo gente bem conceituada desancando pessoas que, para eles, não fazem nada mais do que ganhar dinheiro - e muito - com o que fazem, e louvando obras de pessoas que, se perguntarem a maioria dos desinformados desse país quem são, levarão um sonoro: “quem ?” como resposta.
 
            O engraçado é que nós, os pobres mortais, é que ficamos com cara de “trouxas” e parecemos idiotas à medida que esses caras desandam críticas às tradições brasileiras, como Roberto Carlos, as novelas, o último disco dos Mamonas Assassinas e por aí vai, dizendo que um dia a casa cai, que brasileiro não tem cultura, que isso e aquilo são coisas babacas, dando a entender que são os donos da verdade, e que, um dia, as pessoas entenderão a verdadeira arte.
 
            E o público, o que faz ? Frase que responde a tudo isso: “para escolher um filme, basta ler o que um crítico de arte diz sobre ele. Se ele achar bom, não vai que é roubada; se ele desancar o negócio, vai fundo que é mó legal, oiai !”. E, descontados os erros propositais de português, é exatamente isso que se pensa sobre a arte: ela existe para agradar as pessoas, e faz com que todos nós nos sintamos bem.
 
            Defender ou criticar arte “torcendo” à favor ou contra é como criticar Rembrandt dizendo que ele vendeu a maior parte de seu talento à burgueses, ou que Michelangelo não quis chocar o Papa quando pintou uma Capela Sistina cheia de nus, sem falar em outros tantos que sacrificaram a arte em nome do dinheiro ou da própria vida. Arte, para mim e para a grande maioria que não entende nada além do palpável, sempre foi e sempre será aquilo que é palpável à sua realidade. Hoje, são uns, amanhã, serão outros, mas em todos os tempos o povo saberá distinguir muito bem o que é arte, o que é “arte” e o que não é nada, ou seja, o que é popular, populista e não tão popular assim - o que não é tão difícil como muitos imaginam, apenas não se sabe como explicar.
 
            Um dia, todos aqueles que fizeram arte serão respeitados, porque a verdadeira arte é popular - apesar dos museus não estarem lotados sempre. E nesse dia é que veremos quem está certo - eles ou nós. O resto é o resto, e, como eu sempre digo, se estou certo ou não, o tempo dirá.
 
 
fps, 02/02/96

P. S.: "A quantidade despreza a qualidade" (Monteiro Lobato)
 


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