Prosa ou poesia, depende do gosto de cada um …

Desert Landscape

Conversa do velho escriba com o todopoderoso 

 

Na antesala do céu e do inferno

o velho escriba recémchegado olha para deus;

o todopoderoso lhe diz muito prazer, sou quem você dizia que não existia;

o escriba lhe diz pois é, estava errado;

deus, após uma pausa, mira-lhe com um misto de ira e desprezo,

e lhe informa sabes o que vai te acontecer, não sabes?

e o escriba lhe responde, mais sereno do que deveria estar;

pois sim, sei que o inferno me aguarda, desta forma,

e deus, curioso e indignado, mas já esperando a resposta,

pois sabe de tudo e de todos, e de todos os sentimentos,

pergunta-lhe mas como estás assim?

assim como? pergunta o escriba;

eu lhe digo que vais para o inferno e vós desse jeito,

sereno, tranquilo, sem nem pensar no desespero eterno

que o aguarda? responde, pois, é teu deus que te pergunta.

primeiro, não és meu deus, começa o escriba,

visto que jamais acreditei em ti, e, portanto,

não posso reclamar quando te vejo em sua glória completa;

segundo, o mundo de onde vim é tão injusto quanto é essa antesala,

o que mostra que tu não és somente a bondade do que falavam;

isso é verdade, interpela deus lhe mirando,

agora com o rosto transfigurado, com um sorriso,

como se estivesse gostando de ser desafiado por aquele escriba.

mas continue, por favor, diz o todopoderoso.

e terceiro, para encerrar,

de que posso reclamar agora que o fim está próximo?

errei e não errei, errei em não aceitar um deus mas não errei em negá-lo,

pois és mais complexo do que imaginava.

sabes que há quem espere que se ajoelhe?

não, não farei isso,

e porque não o faria?

porque seria hipocrisia demais da minha parte,

ajoelhar-se diante de quem não se respeita.

 

pois bem, vais descer agora, teu sofrimento deve começar;

já sei, tive a educação dos católicos, não me espantaria isso;

mas não farei isso com você, interrompe o todo poderoso.

e o que será de mim então? pergunta o escriba, curioso

para saber qual o destino que o reserva.

 

 

está vendo aquele banco, naquele cantinho?

sim, me parece um banquinho de madeira, com um estofo em cima.

sim, pois é, seu destino será ficar ali, de frente para mim, para sempre.

 

mas como, nada mais do que isso,

nada de fogo, ranger de dentes, etecetera e tal?

 

não.

 

mas porque, deus, farás isso comigo?

 

para punir-te,

e, antes que pudesse arguir, completa deus todo poderoso:

 

“Pois queres maior punição para um ateu do que lembrá-lo de que Deus existe?”

 

fps, 27/10/2010, 12:21

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Conclusões sobre a Lei Seca

Poesia: Desespero da Arlequina

Porque as Igrejas não discutem o que acontece na sociedade? Mais ainda: será que salgamos o mundo como deveríamos?