Enfim, prosa!

Primeira viagem

Tarde na maternidade é sempre de festa, contida pelo silêncio obrigatório em um lugar de saúde mas que volta e meia é cortado pela felicidade daqueles que entram com as que amam e saem com mais um ente querido, envolto em panos limpos e que ora dorme, ora chora, ora mama, ora faz tudo isso e um pouco mais.

Já que bebê não pede cuidados, simplesmente os exige.

O fato é que nesse momento um futuro pai está entrando às portas do hospital com a sua câmera de vídeo, pronto para filmar o instante sagrado em que sua esposa dará a luz; porém, meio que estabanado, já que vários acontecimentos sucessivos contribuiram para seu atraso, começa a olhar para todos os cantos à procura da sala de parto, já que prometera estar lá na hora mais feliz de suas vidas, dele e da esposa.

Vai entrando, correndo, na sala 202, quando alguém o segura:

- Senhor, senhor …

- Opa, prazer, Fulano; eu estava chegando para filmar, e ela está em trabalho avançado, me disse no telefone; mas sabe como é que é, reunião, ela disse que não queria cesariana e eu concordei, mas a gente não sabe qual é a hora que chega …

- Senhor, senhor …

- … porque esse trânsito maluco das grandes cidades é uma loucura, e eu estava numa reunião, pois é, reunião, e a gente, vocês sabem, é muito ocupedo, e eu tinha que dar algumas diretrizes ao pessoal, o carro não pegou de primeira, trânsito, você vê …

- Senhor, senhor … espere …

- … e a gente sempre apressado, e sempre atrasado, e como é que faz para funcionar essa coisa, a bateria está meio invertida, sabe como é que é, primeiro filho, e – porcaria de lente - câmera que a gente usa somente uma vez na vida, outra na morte, mas primeiro filho é primeiro filho, sabe, pedi para aguardar e ela não fez cesariana, mas ainda bem que eu estou aqui, e – droga de …

- Ela disse que o senhor não é o pai.

- Como?

- Ela disse que o senhor não é o pai da criança.

Alguém já imaginou o chão se abrindo aos seus pés, seus pés caindo em direção ao infinito de um buraco sem fundo e você se sentindo pior do que o individuo que é mandado pela oitava vez consecutiva a um paredão de “reality show” ou do que o jogador de futebol que perdeu um pênalti em final de Copa do Mundo de futebol?

Acredite: é melhor, mais muito melhor do que as sensações desse futuro ex-pai, e presente dono de enfeite na cabeça, que, sentado num banco em frente à sala 202, reflete sobre a tragédia que o abalou:

“É, bem que me disseram que essas coisas podem acontecer com qualquer um … e eu, que achava que meu casamento era tão belo, tão bonito … até sonhava em refazer os votos, no mesmo lugar em que nos conhecemos, doze anos atrás … tão lindo …

… e será que a culpa foi minha, meu Deus? Eu sei, sou um cara ocupado, vivo de reunião em reunião, de curso em curso, dando mais importância à empresa do que a mim mesmo … mas caramba, será que foi tão grave o que eu fiz, será que eu mereço tudo isso, eu, que sempre fui amoroso, cordial, prestativo, amável, e, principalmente, fiel?

Não, isso não vai ficar assim, não mesmo … vou xingar, gritar, esbravejar contra o mundo … mas de que adianta, ela vai me chamar de corno na cara dura e aí eu serei humilhado, diante de todo o mundo …

… já sei, vou matar o cara … não, vou me matar … sim, me mato, e deixo um bilhete de despedida dizendo que ela foi ingrata e safada … ela vai morrer de desgosto …”

Súbito, volta a razão: “Não, não adianta … bobagem até pensar nessas coisas: mas vou lá, desligo essa porcaria de câmera e vou ver com ela o porque de tudo isso”.

E detalha a si mesmo: “com calma”.

E assim, com o orgulho destroçado, o ex-pai dirige-se ao enfermeiro à porta da sala:

- Rapaz … ô rapaz …

Vira-se o moço:

- Escuta, rapaz, eu posso falar com ela?

- Já disse, ela não pode falar com o senhor, está em trabalho de parto … e o senhor não é o pai da criança, desculpe …

E então ele explode, num grito que mais parece de desabafo do que choro:

- Mas meu Deus do céu, o que é que foi que eu fiz a esse mundo, porque é que depois de doze anos de casado eu nem posso falar mais com a minha mulher, porque é que ela não quer falar comigo, que droga; pede para eu falar com ela, por favor, eu quero falar com a Sonia, meu Deus, Sonia, SONIA, SO … (Glup!)

A boca é fechada pelo enfermeiro, que logo a solta e o repreeende:

- O senhor está louco, ela está quase para dar a luz, que irresponsabilidade de querer falar com a dona So… So … So …

E, nesse meio tempo, a raiva se abranda e o rosto carrancudo dá lugar a um sorriso, quase um riso contido, quando ele encerra a sentença:

- … fia …

- Fia, fia o quê? Eu quero falar com a minha mulher, po…

- Dona Sofia … (termina assim o enfermeiro, interrompendo mais uma vez o ataque do histérico ex-quase-pai) … o nome da sua esposa é Sonia, certo?

- Sim, claro, Sonia, quarto 202, bloco A …

E finalmente o sorriso se torna em riso contido:

- Senhor, estamos no bloco B; o bloco A é ligado a esse, mas a entrada diretamente a esse bloco é por outro lugar e o senhor se enganou …

E o praticamente choro se torna em indagação, a princípio contida:

- Quer dizer que a Sonia não está nesse quarto?

- Sem dúvida, não; e ela disse que não o conhecia, o senhor foi chegando com tanta pressa que eu tive que interrompê-lo, já que estava já botando macacão e tirando essa câmera de vídeo e poderia incomodar mãe e criança …

Alívio geral, alegria, e o agora ex-ex-futuro-pai recomeça sua sina:

- Ai, meu Deus, obrigado, o senhor não sabe como me fez bem ouvir isso; sabe como é, primeiro filho é sempre complicado, mas como é primeira viagem a gente se perdoa e, o senhor sabe, bem, acostumar-se com tudo, carinho, afeto, choro, beijos, cocô, abraços, xixi, sentimentos, tudo junto e ao mesmo tempo … tanta coisa boa …

- Mas o senhor não se esqueceu de uma coisa?

- Hum … do que?

E o enfermeiro:

- Sua mulher está para dar a luz … no outro bloco desse hospital …

Tais palavras soam como um clique no agora futuro pai, que agora se toca do que tem que fazer: um “obrigado” seguido de “um preciso ir” e um “já vou, querida”, de alguém que não tem mais tempo a perder, e que agora corre rápido, faceiro e feliz em busca da mulher que está em outro lugar do hospital.

Mas que, surpreendentemente, ainda tem tempo de ouvir o enfermeiro ao fundo:

- Corre, corre, que ainda dá tempo … ê, novo pai chegando ao mundo …

 

fps, 08/10/2010, 23:07

para Rods, esperando Laura, e para quem contou essa história

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