Prosa: Halloween à brasileira

 
lobi
 

- Sacanagem, meu, p... sacanagem.

Na conversa entre o adolescente e a mãe, naquela casa nacionalista até o talo, o filho do socialista professor de História expressou sua indignação da maneira mais espontânea que encontrou.
 
E, enquanto a boa mãe olhava a cara desolada do garoto, e pensava com seus botões para não falar alguma besteira contra o pai, o fedelho que saiu das fraldas e ganhou voz continuava sua lamúria:
 
- Cara, meu pai é "mó" chato ... imagina só, eu estava querendo ir aquela festa de Halloween, aquela do inglês, sabe, tio ...
 
"Sei ... aquela que seu pai demorou a aceitar, e que só deixou você entrar porque eu paguei ..."
 
- ... aí ele veio com um tal de "ralouim, só se for com macaxeira", me falou para deixar de ser bobo e ficar em casa, que essa festa é do imperialismo estrangeiro e que ... olha só o que ele disse ...
 
"Sim, eu ouvi lá da cozinha: NENHUM FILHO MEU, DE UM PAI TÃO REVOLUCIONÁRIO COMO EU, VAI PASSAR POR UMA FESTA TÃO CAPITALISTA COMO ESSA, MUITO MENOS ..."
 
- ... "muito menos usar fantasia de imperialista americano, e desmerecer nossa cultura ri-QUI-SSI-ma, com lendas tão bonitas como o Saci, o Curupira e o Boitatá!!!"
 
No fundo, ela sabia que ele ia pedir a autorização para ir à festa, e fantasiado; aliás, foi isso mesmo que aconteceu, com direito a cara de choro e etecetera e tal. Mas era complicado: o marido era atencioso, muito "Che" para o gosto dos sogros mas, ainda assim, cumpridor de suas obrigações, e, acima de tudo, um bom pai.
 
Súbito, a lâmpada acendeu. Na cabeça da mãe, que teve uma ideia.
 
- Vem cá, filho, me deixa resolver o seu problema ...
 
...
 
Chega na festa o garoto, um pouco atrasado.
 
Está com as roupas do avesso, todo desgrenhado, um monte de pelos saindo do peito, e pó-de-arroz no rosto até dizer chega. Um talho aparente atravessa o pescoço, e há sete nós na sua camisa; e a roupa toda está imunda, de tanta poeira.
 
Os amigos o fitam. Todos tem medo de perguntar o que foi que aconteceu, se foi roubo ou surra ou o quê.
 
Até que o mais gaiato se arrisca:
 
- Mas que …
 
- Fantasia.
 
- Zumbi?
 
- Lobisomem, lenda do Brasil. Maldito, toda noite de lua cheia vai para um cemitério. Rola no chão, depois vira bicho. Tem que passar por sete cemitérios, sete igrejas e sete vilas durante a noite, senão fica assim para sempre.
 
E, antes que pudessem dar risada do "visual" esquisitíssimo de "Ralouim", explicou:
 
- E não me enche, que teu pai não é professor de História …
 
fps, 31/10, 14:33

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