O sonho e o roubo: Dimenstein e a Virada Cultural de 2013

Uma teoria particular minha diz que não são os políticos os grandes inimigos do Brasil, mas sim os jornalistas e teóricos que inventam um país ideal mas não pensam se a população realmente topará transformar as cidades caóticas em "cidades-modelo" pacificamente. 

No caso de São Paulo, especificamente, isso significa impor aos cidadãos daqui por querer para os paulistanos um sonho que a grande maioria despreza, o de uma cidade-modelo como as grandes capitais europeias misturadas com Bogotá e as experiências que, por essas bandas, só serviram para cansar o cidadão comum, atrapalhar (mais ainda) o tráfego comprovar que política no Brasil é cada vez mais feita em laboratórios que nada tem a ver com a realidade de sacolinhas plásticas e domésticas de meio período.

Prova disso são as duas matérias abaixo, antes e depois da Virada Cultural, onde Gilberto Dimenstein, um dos mais representantes desses pseudo-teóricos, teve seu celular furtado, mas não perdeu a esperança de que surja a "cidade perfeita".

Dos sonhos dele, claro.
18/05/2013 - 08h29 (antes)

São Paulo é hoje dos meus sonhos


É pouco tempo, quase nada, apenas 24 horas. Mas, neste final de semana, São Paulo é a cidade dos meus sonhos.

A Virada Cultural - o momento mais interessante paulistano - sintetiza o que imagino ser uma cidade civilizada.

Cidade civilizada é as pessoas ocuparem as ruas e vivam a criatividade.

Não é a cidade dos muros, dos crachás, dos condomínios, dos vidros blindados. Mas da convivência intermediada pelo conhecimento.

A Virada Cultural é quando a criatividade paulistana, encalacrada, sai para fora, mostra sua exuberância.

E acena para que o poderíamos ser caso não fôssemos vítimas de tanta incompetência por tantos anos..

Se tivéssemos prefeitos mais preocupados em abrir espaços para pedestres do que para carros.

Se tivéssemos mais gente olhando para o transporte público do que para viadutos.

Se tivéssemos mais gente convencida de que o que deixa uma cidade democrática é a educação e a cultura para todos - e não obras.

Se tivéssemos uma elite econômica com amor pelo lugar onde vive e desse o exemplo de cuidado.

Se tantos políticos não fizessem da cidade apenas um trampolim.

19/05/2013 - 11h26 (depois)

Fui uma vítima da Virada Cultural

Escrevi ontem aqui que a Virada Cultural mostra a São Paulo dos meus sonhos: uma cidade ocupada por pedestres, onde as ruas sejam espaço de convivência e criatividade.

Para não perder a conexão com a realidade, fui uma das vítimas de um arrastão: voltei para casa sem meu celular.

Piorando a situação, levaram meu aparelho enquanto eu caminhava no Largo do Arouche (o palco brega) ao som de Luiz Caldas. A tristeza diante da perda do celular era agravada pela terrível sonoplastia.

Seria tolice imaginar que, por causa da Virada Cultural, a cidade se convertesse num ilha de paz de civilidade --e toda uma multidão aglomerada se comportasse sem nenhuma transgressão.

A regra da cidade em que vivemos é a marginalidade e a violência. Por isso, vivemos trancados, pretensamente protegidos por muros e cercas elétricas

Está aí exatamente o nosso maior desafio: ocupar as ruas, com todos o seus riscos, para que não sejam o território do medo. Trazer multidões para as ruas é um misto de ousadia e ato de simbólico de resistência contra a barbárie.

Não podemos ficar reféns do medo. Precisamos exigir não só cada vez mais segurança,.

Mas sobretudo mais educação e cultura - aqui está a verdadeira segurança nas ruas.

Perdi o celular. Mas como confio no poder da educação, não perdi a esperança.

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