2.10.16

Dória prefeito: a vitória do que São Paulo é sobre o que ela deveria ser

Enquanto a elite progressista de São Paulo chora a desgraça de ter perdido o prefeito mais revolucionário que passou pela cidade desde a redemocratização vamos nos focalizar nos dois modelos de cidade que poderiam ter passado ao segundo turno - claro, se a turba não tivesse se assustado com a votação forte de Fernando Haddad e despejado em João Dória votos suficientes para que o "coxinha de suéter" tucano se tornasse prefeito em primeiro turno.

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Comecemos pelo grande derrotado, Haddad e o que São Paulo "deveria ter sido".

Haddad representa a esperança, propagada no Brasil por sites como o Cidade dos Sonhos e por pensadoras urbanísticas como Raquel Rolnik, de que São Paulo se tornasse uma cidade mais humana. Esse movimento de sonhadores urbanos, que vê cidades como Amsterdam e Copenhague como o ideal dos grandes centros, foi quem mais alimentou as atitudes que a Prefeitura de São Paulo tomou nos últimos anos - e a consequente raiva dos cidadãos contra um governo que, na opinião do Centro e das periferias, nada fez pelo cidadão paulistano, a não ser atrapalhá-lo.

Agindo como se vivesse em um mundo à parte, a Prefeitura teve a pachorra de comemorar medidas impopulares como se fossem grandes feitos. Imaginou poder mudar a opinião do cidadão médio culpando "a mídia" ou "a classe média" pelo retrocesso. Foi alimentada, nesse processo, por blogs e sites progressistas que desdenhavam claramente do sofrimento do cidadão médio da cidade.

Um governo que se nega a atender à necessidade do cidadão não poderia prosseguir. Seria ingenuidade dos petistas mais radicais e da turma "hipster" da cidade, aquela que mal sai do eixo Paulista-Baixo Augusta-"Vila Madá", imaginar que o atual prefeito conseguiria a reeleição.

Quem fala que os indignados da cidade apenas fazem "mimimi" merece levar uma surra - nas urnas, não nas ruas. E que foi dada em grande estilo, vinda de um cidadão que é o oposto de tudo isso que São Paulo viveu nos últimos quatro anos.

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Se o futuro ex-prefeito é o sonho, João Agripino da Costa Doria Junior (ou Bisneto) é a realidade.

O lobista, publicitário, filho de deputado cassado pela ditadura, ex-presidente de estatal paulistana, ex-apresentador de "reality show"e de programa empresarial representa a fundo a imagem de uma São Paulo odiada pelos "hipsters", mas que é desejada pela grande maioria dos cidadãos.

É a "selva de pedra", sem humanidade aparente, em que as pessoas querem ser atendidas pelo Estado com um padrão de iniciativa privada (que SEMPRE será melhor, em sua opinião) e poder garantir para si e sua família uma "qualidade de vida", com as necessidades atendidas em primeiro lugar.

Esse cidadão, de todas as classes, não deseja ser incomodado por um conjunto de políticas públicas que não o favoreça, e que o obrigue a abrir mão de suas comodidades em função de um "bem comum" supostamente mais importante. Afinal, suas prioridades são mais relevantes do que esse todo, já que ele não tem tempo - ou possibilidade - de mudar seu estilo de vida para agradar à coletividade (entenda-se: aos membros da "elite progressista paulistana").

Aliás, ajustando bem os verbos: não é que ele "não deseja" ser incomodado. Ele NÃO QUER.

O cidadão comum não quer andar como "lesma lerda" nas Marginais e em outras avenidas porque irresponsáveis podem passar na frente dele - assim como não aguenta mais ver o drogado ao seu lado causando medo em seus filhos quando passa na rua. Ele detesta ver as ruas fechadas, impedindo seu direito de ir e vir rapidamente, para resolver coisas que deixou para fazer no final de semana.

Ah, e mais ainda: ele não usa ciclovia, nem ciclofaixa. Talvez até goste de uma bicicleta, mas para os fins de semana de lazer - afinal, quem tem medo de moto vai usar a "bike" todo dia?

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São Paulo é uma cidade que se desenvolveu em torno de relações privatizadas. Loteamentos particulares desenvolvidos por companhias caras, ligados por grandes avenidas que "solucionaram" o problema dos córregos que inundavam a cidade - e que aumentaram ainda mais a segregação, ao delinear os bairros ricos, pobres e remediados que temos hoje.

Uma situação caótica, injusta, cruel - mas que esconde uma verdade inconveniente: o cidadão se acostumou a isso. Na verdade, até gosta, pois os bairros residenciais, tranquilos, se separam das zonas boêmias, e as áreas comerciais não "atrapalham" os locais com "cara de casa".

Essa era a situação da maior cidade do Brasil, esse microcosmos de tantos defeitos, essa metrópole ingovernável e incompreensível, que sempre está próxima do caos.

Mas que, surpreendentemente, se identifica com ele. Até o alimenta.

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Dória não é o que a cidade precisa, mas é o que ela quer. Melhor se acostumar com isso.

P. S.: Em uma propaganda, a Prefeitura chama São Paulo de "Sampa" e define a cidade em poesia. Na outra, louva os feitos da administração enquanto mistura hip-hop com rap.

Desculpe, mas... quem é que disse que isso poderia dar certo?

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