Prosa

Carta a um antigo colega, sobre o duplo sentido do ser

(São Paulo, 07 / 10 / 96 - 17h26min)

 

“Lancome, estive pensando seriamente sobre a dubiedade da vida. Esse assunto, que intriga os cientistas, fascina os filósofos e apaixona os teólogos, tem transformado pessoas e seres no decorrer dos tempos. Comigo também não seria diferente, e lhe direi o porque.

 

Meu caro Lancome, muitos acham que vivi minha vida da maneira mais simples possível, e que sempre fui esse homem gentil e educado que hoje lhe fala, e que transforma o meio em que vive, dotando-o de um grande astral, que é, afinal, o que faz com que o mundo gire, e que transforma a todos que o cercam em infinitas peças desse tabuleiro colossal chamado universo. No entanto, quero que saiba que nem sempre eu fui assim, metido a sabido, seguro de mim, querendo simplesmente fazer de minh´alma um catalisador das profundas certezas existentes no ser.

 

Já vivi muito mais do que pensas, Lancome.

 

Quando jovem, sentia em meu ser toda a fúria de um garoto que aprende seus primeiros passos, que procura sentir o possível, amar o impossível e experimentar, um a um, os grandiosos sentimentos que passam ao largo dos seres humanos. Vivi toda a vida que um garoto inexperiente pode ter - e sofri, como nunca, as consequências desses atos amargos, alguns impensados, outros bem engendrados, que já quis ter.

 

Já fui muito mais ingênuo do que hoje sou, Lancome.

 

Já vivi tempos em que acreditava em tudo e em todos, em que queria, cada vez mais, ser forte como um touro, ser bravo como a águia, intempestivo como o trovão, já tentei ser um pouco de tudo, sem no entanto encontrar o que preenchesse o vazio de minh´alma, e o que a fazia sussurar, como um sonho. Já vivi tudo e todos, já tentei ser maior que o mundo, já tentei e quis ser o que pude - e também o que não pude, daí minha desilusão do mundo, e minha vontade louca de dar cabo de tudo, e fazer de mim homem feito, como ainda não sou.

 

Ainda não vivi tudo o que queria, Lancome: mas o que vi nessa vida pode ser um parâmetro do que será o futuro: não pude descrever os sentimentos ruins que senti, a ignóbil sensação de vazio que tive, e o vazio que tomou conta de mim depois disso.

 

E isso porque bem lá no fundo, Lancome, todos temos dentro de nós um ser, um ser ignóbil e cruel, que afronta ao mundo e destrói a si mesmo, e que transforma aos que são sua habitação em pessoas insensíveis à realidade de seus sonhos, e traz para dentro deles a dura realidade, que ninguém quer ver, mas que a tudo cala, e a tudo consente, transformando o mel em fel, e a bondade em dor, para si mesmo e para os outros.

 

Quem me dera, Lancome, não ter vivido tudo isso, para poder ser mais puro.

 

Quem me dera, meu amigo, ser apenas mais um para não ter visto o que vi.

 

Quem me dera, meu caro, poder ser como tú, que a mim me perguntas, dizendo: “O quê?”, “Como?”, “Onde?” ou ainda, “Porquê?”, sem encontrar as respostas para os meus atos, ou as verdades que eu já vivi.

 

E, se posso te aconselhar, não procures, por favor, as respostas que vi, Lancome.

 

Procure viver sua vida, lutar por ela, encontrar-se contigo mesmo e fazer de seu corpo morada feliz para seu grande ser, como tú já o fazes, e ainda o farás, nessa vida insana.

 

Quanto a mim, resta-me encontrar meu rumo, apesar de tudo o que disse, e de tudo o que já vivi e disse que vivi; e, se perguntarem a mim como vou, responderei, simplesmente, que vivo conforme a vida e o pensamento me indicaram um dia.

 

E, quem sabe, serei mais feliz, e capaz de olhar para a frente e dizer, a tudo e a todos, que enfim venci.

 

 

 

Confie em mim.

 

 

Cordialmente,

 

 

Ralph deMacchio.”

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