17.6.13

Prosa: Delitos Comuns IV

Retratos de uma traição

Voltava para casa, depois do longo início de noite e antes que ela se tornasse em criança levada, a criança que todos nós queríamos ter de verdade sido.

Tinha os olhos cansados, sem colírios ou remédio que dessem jeito naquela ilusão de vida que levava, vida que na verdade era uma vida besta, do trabalho para casa, de casa para o trabalho, às vezes para o curso, outras para as reuniões maçantes de família ou as "happy-hours" do serviço, em que na verdade se cultiva e se cultua apenas o ato de nada fazer e de tudo fingir, como se pudéssemos encontrar verdadeiros amigos em um lugar onde todo mundo se vê para se comer vivo, ou fritar-se ...

Ufa!

Tinha pensado demais: já era tarde e tinha que enfrentar a volta, a tenebrosa volta para um mundo que já não era mais o seu, um mundo de aparências distantes e disformes, bem diferentes do início do seu "affair", em que a esposa bastava para lhe livrar dos sofrimentos e desgraças que o mundo insistia em lhe dar.

Esta tornara-se oca, como a própria mãe fora: preocupada, mais que na verdade, em ganhar e gastar em ostentação e delírios de luxúria que já de nada valiam, já que a cama, antigamente um poço de desejos, sucumbira ante os problemas de uma relação desordenada e desajustada pelos tempos e pelas torturas de sempre a mesma coisa, as mesmas cobranças, a falta de compromisso e descaso pelo homem por trás do vulcão que na cama ele sempre se julgou ...

Vulcão? Nem tanto: era apenas um sonho; já não era mais jovem, e mesmo que quisesse, jamais voltaria a sê-lo.

A secretária, coitada, era a única a ouvi-lo em seus sonhos e devaneios: tinha ela os sonhos de crescimento, como toda vagabunda nessa situação - se bem que, na verdade, nem vagaba ela era, era apenas uma mulher liberada que não queria saber de compromisso nenhum, e que, segundo ela, não se prendia a ninguém, era livre como o canto dos pássaros para fazer o que quiser, embora ele soubesse muito bem que a velhice acabava com esses sonhos, e que valia muito a presença do "cobertor de orelha" na mão ...

... ou será que não?

Bem, não era hora de pensar nisso, devia voltar para casa e ser o mesmo homem de sempre, bom marido, bom filho, bom pai, traindo-se a si mesmo dentro de todos aqueles arranjos, acabando-se em sua própria hipocrisia de velho menino, cometendo seus delitos comuns.

Como todo respeitável homem de bem, que comete seus delitos que nem sabe que existem, transgressões que não passam, bem lá no fundo, de ilusões do cotidiano.

fps, 12/09/00, 15:30

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