O filósofo e a mesa da ditadura


Perguntaram ao filósofo, do alto de sua sabedoria, qual era a diferença entre a democracia e a ditadura. 

Este parou, fitou o horizonte por alguns minutos; depois, tomou mais um gole da vodka que estava bebericando. Arrumou a gravata, levantou-se solene e passou a contar-lhes mais uma das parábolas que, vez ou outra, aquele bar se acostumar a ouvir entre um gole e outro de cerveja:

"Em uma casa de família o jantar de domingo é servido. 

Cinco são as cadeiras da mesa que visualizamos: a cabeceira é do pai, que, sisudo, aprecia em paz sua refeição domingueira. 

A mãe, sentada à direita do patriarca, estende ao filho mais velho um prato, que o recebe, silenciosamente; este, que está à esquerda do pai e de frente para a mãe, se veste com camisa sóbria, de mangas compridas, e calça social, bem apropriada para a ocasião.

Ao lado da mãe, uma formosa menina, de vestido bem largo e tranças, toma sua sopa sem fazer barulho. A cadeira ao lado do mais velho se encontra vazia, mas os pratos e talheres se encontram arrumados, como se alguém estivesse para chegar a qualquer momento."



Dito isso, parou. 

Esperou que o último se calasse, tomou mais um gole da bebida transparente que o acompanhava, afrouxou a gravata e continuou:

"A princípio a imagem que contei poderia ser muito tranquila, de uma família feliz. Mas e se eu lhes contar que cada um deles esconde um segredo muito grave dos demais membros dessa mesa?

A esposa tem um amante, a filha está grávida, o filho mais velho fez uma tatuagem recentemente (e esconde um punhado de maconha no seu quarto). Quanto à cadeira vazia, é do filho mais novo, expulso de casa depois de revelar-se homossexual.

E que é sempre lembrado pela mãe, que mantém os pratos e talheres arrumados, na esperança de que, um dia, volte para o seio de sua família."

...

Diante do olhar estupefacto dos presentes, ele sorri. Bebe mais um gole da água que o acompanha, e explica a parábola a quem ainda não entendeu o que :

"Assim é a ditadura, meus caros senhores: uma grande falsidade, disfarçada pela ordem. 

O pai é o ditador, o poder dominante, militar ou civil: impõe respeito à força, possui o poder, mas não sabe do que se passa à volta. 

A mãe é o seu preposto, que age como auxiliar da ditadura enquanto lhe interessa: uma hora, quando a democracia voltar, deixará o pai de lado para ficar de vez com seu amante.

Os filhos são as diferentes faces do povo, que ora se submete à hipocrisia dominante, ou esconde seus delitos; poucos, porém, assumem o que realmente pensam, e quando o fazem são reprimidos - ou exilados, como o filho expulso de casa por ser verdadeiro consigo mesmo".

...

Terminadas essas palavras, toma o último gole, e vai saindo quando um gaiato pergunta: "E a democracia?".

Não responde, o filósofo. Está longe, já pagou a conta e vai embora. Mas voltará. 

E responderá a essa pergunta.

Um dia.


fps, 23/03, 16:48

P. S.: A tirinha foi feita depois, mas é perfeita para esse texto. Crédito ao Mentirinhas pela sacada.




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